quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Festival do Rio (Festa no Céu)


Uma revigorante fábula sobre a vida após a morte

Após quase quinze anos de produção, o diretor Jorge R. Gutierrez faz de Festa no Céu uma ode ao vasto folclore mexicano. Apostando num tom extremamente lúdico, destacado pelo fantástico e bem característico aspecto visual, o longa produzido por Guillermo Del Toro se mostra encantador ao tornar universal uma história de amor, morte e companheirismo. Explorando com grande inspiração os traços mais marcantes da religiosidade desta região, potencializada por uma trama que não se preocupa somente com o lado comercial, a animação opta por exaltar a vida através do tão tradicional Dia dos Mortos. Um fantástica viagem não só para as crianças, como também para os adultos.

Apesar de Brasil e México serem dois países de maioria cristã, o Dia dos Mortos é celebrado de forma completamente distinta nestas duas regiões. Enquanto por aqui o Dia de Finados tem uma conotação mais voltada ao luto, no México o dia 2 de Novembro é celebrado como uma das maiores festas do ano. Capturando a essência deste evento, Gutierrez faz de Festa no Céu uma viagem espetacular através das cores, fantasias e dos costumes típicos da cultura mexicana. Embalado pelo ótimo uso do CGI, completamente particular e inventivo, a trama viaja pelo mundo dos vivos e dos mortos com energia e paixão, mantendo o ar cativante do inicio ao fim. Com a nítida intenção de promover as raízes do país, o roteiro assinado pelo próprio Gutierrez, ao lado de Douglas Langdale (O Retorno de Jafar), usa um esperto tom didático ao apresentar este argumento. Apostando na figura do narrador, o longa tem início com a chegada de uma turma de jovens rebeldes a um museu. Atendidos por uma atenciosa guia, ao invés deles visitarem uma área comum do local, ela decide leva-los para um espaço misterioso. Lá, eles conhecem o Livro da Vida, e são apresentados a história de amor entre três jovens.


Criados no mesmo vilarejo, o romântico Manolo, a elétrica Maria e o corajoso Joaquim eram amigos inseparáveis. Em meio à celebração do Dia dos Mortos, os três despertam a atenção de duas entidades: o traiçoeiro Xibalba, responsável pelo sombrio mundo dos esquecidos, e a justa La Muerte, que liderava o alegre mundo dos lembrados. Percebendo que os garotos já alimentavam certo amor por Maria, os dois entram em acordo por uma troca de reinos caso acertem quem será o primeiro a conquistar o coração da jovem. Enquanto o deus do mundo dos esquecidos aposta em Joaquim, La Muerte (dublada com brilhantismo por Mariza Orth) opta por Manolo. Pouco tempo depois, no entanto, Maria vai estudar na Espanha, deixando os amigos para trás. Dividido entre a tradição da família e o amor pela música, Manolo vira um toureiro relutante. Já Joaquim, assim como o seu finado pai, se torna um ídolo local ao proteger o vilarejo das garras do temido Chacal. O tempo passa e, após o regresso de Maria, os dois começam uma disputa para tentar conquistar o coração da jovem Maria. Ciente da aproximação de Manolo, Xibalba resolve trapacear, fazendo com que o romântico aspirante a toureiro inicie uma grandiosa jornada para conquistar o seu grande amor.


Com uma narrativa cheia de ritmo, pontuada pelo humor simples, o roteiro desenvolve com destreza não só as noções religiosas, com uma série de nítidas referências ao catolicismo, mas também o aspecto cultural mais enraizado do povo mexicano. Trabalhando muito bem com as influências paternais, típica dos países latinos, esta fábula sobrenatural apresenta personagens elaborados, que fogem dos clichês e rótulos do gênero. Ainda que no clímax o longa se renda a figura do típico vilão, principalmente nas empolgantes sequências de ação, os personagens se mostram multidimensionais, com uma série de facetas e dilemas. Evitando se prender ao embate entre os amigos Manolo e Joaquim, até porque Maria está longe de ser a típica donzela indefesa, o argumento evidencia a força dos personagens através de bordões revolucionários e da característica atmosfera contestadora do povo mexicano. Como se não bastasse isso, além das tocantes lições de amizade e companheirismo, o longa aposta num bem vindo tom pacifista, fortalecido pela tolerante relação entre Xibalba e La Muerte e pela importante crítica ao universo das touradas. Uma opção que, na verdade, traz para o terreno mais crítico essa bela mensagem pela vida, seja ela após a morte ou entre os vivos.


O visual, porém, merece um capítulo a parte. Reproduzindo com fidelidade o folclore local, o brilho e as cores vivas ganham vigor através dos traços estilizados de Gutierrez. Como boa parte do longa se passa num universo lúdico, já que os protagonistas são bonecos utilizados pela guia ao contar essa história, o detalhismo dos personagens impressiona. Cada um deles é definido com esmero, marcado por figurinos exóticos e pequenos elementos que potencializam os seus respectivos traços de personalidade. Com destaque para as populares "caveirinhas", que enchem a tela de alegria com os antepassados da família de Manolo, e para a dupla La Muerte e Xibalba, que impressionam em todos os sentidos. O mesmo, aliás, acontece com o trio Maria, Joaquim e Manolo, que além de visualmente expressivos, se mostram extremamente carismáticos. Já com relação aos cenários, os contrastes são o grande diferencial. Enquanto o mundo dos vivos se mostra mais verossímil, com direito a arenas de touro e casas humildes, o mundo dos mortos parece uma espécie de carnaval carioca, com gigantescas alegorias, muita música, ponto para a trilha de Gustavo Santaolalla, e fogos de artifício. Efeitos que são potencializados pelo eficiente uso do 3-D, que ressalta os elementos secundários, entre eles a fumaça do mundo dos esquecidos e a incessante chuva de papel picado do festivo mundo dos mortos.


Trazendo leveza a uma trama aparentemente pesada, o que rende uma divertida autocrítica dentro do próprio longa, Festa no Céu é uma das grandes surpresas de 2014. Promovendo a cultura mexicana de forma original, o diretor Jorge R. Gutierrez encanta através de uma obra empolgante, que mistura o melhor da animação tradicional e das correntes mais inovadoras. Prova disso é que em meio aos envolventes números musicais, com direito a canções originais e a versões mais latinas de clássicos como Creep (Radiohead), os traços estilizados e a temática sobrenatural dão a animação uma atmosfera revigorante, com a cara de Guillermo Del Toro. Sem dúvidas, uma homenagem passional e altamente digna envolvendo o vasto folclore mexicano.

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