quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Cinemaniac Indica (Rede de Intrigas)


Lançado há quase quatro décadas, Rede de Intrigas (1976) é muito mais do que uma contextualizada sátira social. Na verdade, o longa dirigido por Sidney Lumet (12 Homens e uma Sentença) é um grande vislumbre do que viria a se tornar o mercado da telecomunicação mundial. Nos apresentando uma contundente crítica envolvendo a massificação, a alienação e - principalmente - a manipulação através da grandes empresas de comunicação, esse drama com toques de humor negro mostra com clareza o polêmico rumo da TV mundial. Num momento em que as emissoras preferem enfatizar o sensacionalismo em detrimento da informação, colocam a beleza física à frente da inteligência e falam o que o público quer ouvir, e não o que ele precisa, Rede de Intrigas é um impactante alerta sobre os perigos da busca de audiência a qualquer custo.

Com roteiro assinado por Paddy Chayefsky, vencedor do Oscar em 1977, o longa narra a história de Howard Beale (Peter Finch), um respeitado apresentador da fictícia UBS. Após anos apresentando o grande telejornal da rede, Beale sofre um surto psicológico quando descobre que será demitido da empresa. Apesar dos esforços do editor e amigo Max (William Holden), a queda de audiência no departamento de notícias inicia um grande processo de reformulação na empresa. Comandado pelos gananciosos Diana (Faye Dunaway) e Hackett (Robert Duvall), a UBS incia uma nova fase sob o comando de uma grande empresa norte-americana. 



Desiludido com a demissão, Beale decide anunciar ao vivo o seu suicídio. A chocante notícia se espalha rapidamente, ganha grande repercussão em todos os EUA, e faz com que os índices de audiência cresçam assustadoramente. Empolgados com a situação, Hackett e Diana decidem tirar proveito do surtado apresentador e o colocam novamente à frente do telejornal. Beale se torna a grande sensação dos jornais norte-americanos, permitindo que todas as excêntricas ideias de Diana ganhem força dentro da UBS. As coisas saem de controle, no entanto, quando o discurso dele passa a ecoar por todos os EUA, fazendo com que o público se voltasse contra as grandes corporações. 

Em cima desta inusitada trama, Lumet constrói um trabalho marcado por um discurso repleto de grandes frases. Adotando um tom satírico, o diretor desenvolve com habilidade todo esse processo de manipulação e alienação envolvendo o discurso televisivo. Com diálogos geniais, o roteiro de Paddy Chayefsky é desenvolvido de forma objetiva, destacando toda a ironia por trás desta incessante busca por audiência. Evidenciando os interesses econômicos das grandes empresas de comunicação, Lumet é visceral em sua crítica, expondo as excentricidades do pensamento destes realizadores. Deixando claro que as questões politicas ou sociais são meros detalhes, Lumet é preciso ao destacar o verdadeiro interesse das grandes empresas de comunicação: o lucro. E por mais bizarro que pareça, o espectador mais atento vai perceber que muitas das inusitadas ideias sugeridas ao longo do filme, hoje se tornaram recorrentes dentro do conteúdo editorial de parte das emissoras brasileiras.


E essa sátira, repleta de discursos contundentes, ganha ainda mais peso graças ao poderoso elenco. Comandados com a usual habilidade de Sidney Lumet, Faye Dunaway, Peter Finch, William Holden e Robert Duvall dão um ritmo todo especial ao longa. Enfático em suas cenas, a aura profética de Beale é interpretada com grande intensidade por Finch, ator que faleceu pouco tempo depois do término das filmagens. Se entregando a cada uma de suas falas, e a instabilidade emocional de seu personagem, Finch levou o Oscar póstumo por esse irretocável desempenho. A cena em que ele e Ned Beatty dividem a tela, por exemplo, é uma das mais icônicas da carreira de Lumet. Digna dos grandes clássicos do cinema. Contando também com um grande trabalho do elenco de apoio, vale destacar as presenças de Beatrice Straight, que ganhou o Oscar por uma única grande cena no longa, e também da carismática Conchata Ferrel, hoje muito conhecida como a empregada Berta da série Two and a Half Man. 


Um daqueles filmes que não se resumem a entreter, Rede de Intrigas é um poderosa crítica social ao rumo da informação nos dias de hoje. Apostando nas excentricidades, incluindo ai o inusitado clímax, Lumet conduz uma obra necessária não só para os fãs da sétima arte, mas também para àqueles que trabalham com a comunicação. Um visionário retrato sobre o panorama das grandes empresas de telecomunicações.  

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