sexta-feira, 16 de maio de 2014

Godzilla

De forma grandiosa, longa apresenta o mitológico monstro japonês às novas gerações

Demonstrando grande respeito ao passado do "Rei dos Monstros" nos cinemas, a nova versão de Godzilla é - acima de tudo - uma bela homenagem à sexagenária criatura japonesa. Resgatando toda a história que sempre cercou o gigante criado pelo estúdio Toho, incluindo ai o recorrente trauma relacionado aos ataques nucleares de Hiroshima e Nagasaki, o diretor Gareth Edwards (Monstros) mostra habilidade ao nos apresentar uma trama que não se prende a figura emblemática do monstro nipônico. Equilibrando ação e drama de forma aceitável, o longa de tons épicos consegue explorar o fator humano, sem deixar de lado a grandiosidade das batalhas envolvendo os Kaijus*. 

Tentando seguir a risca todo o contexto histórico envolvendo a criatura, o roteiro assinado por David Callaham e Max Borenstein se mostra extremamente fiel ao apresentar Godzilla às novas gerações. Mesmo sem tocar - diretamente - na questão dos ataques nucleares durante a Segunda Guerra Mundial, e consequentemente na origem do gigante, ainda nos créditos iniciais vemos a primeira pequena aparição do monstro. Explorando o estilo documental, as imagens deixam claro a ligação dele com uma série de testes nucleares no Pacífico, no ano de 1954. Sem dúvidas, uma clara homenagem ao lançamento do primeiro Godzilla. Quatro décadas depois, mais precisamente no ano de 1999, somos apresentados ao Dr Joe Brody (Bryan Cranston), um homem que se dedicava de corpo e alma ao seu trabalho dentro de uma usina nuclear no Japão. Relapso com o filho, Joe vê o seu mundo girar quando uma inesperada catástrofe acaba atingindo os reatores de sua responsabilidade, dizimando uma série de pessoas.


Quinze anos se passam e Joe segue sem aceitar o episódio. Ainda no Japão a procura de respostas, o cientista é detido pela policia ao tentar encontrar pistas nos escombros da velha usina em quarentena. Situação que o reaproxima de seu filho, o agora Tenente do Exército Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson). De volta aos EUA após servir por doze meses no Oriente Médio, Brody deixa sua esposa e filho de lado para resgatar o pai no Japão. Lá, mesmo sem acreditar nas provas de Joe, ele decide tentar ajuda-lo na busca dentro da zona de quarentena. Pra surpresa de Brody o seu pai estava certo, e o despertar de um monstro movido à radioatividade inicia um novo processo de destruição em grande escala. Com a ajuda do Dr Daisuke Serizawa (Ken Watanabe), Brody é liberado, mas acaba se deparando com um grande dilema: oferecer os seus serviços para combater o monstro ou voltar para casa e salvar a sua família.


Com roteiro revisado por Frank Daranbont (Um Sonho de Liberdade e The Walking Dead), a questão humana passa a ter um ponto fundamental dentro desta nova versão. Ainda que alguns personagens sejam subaproveitados, como a Dr. Wates vivida por Sally Hawkins, e que o ritmo seja oscilante na primeira metade, o aspecto dramático presente na narrativa consegue preencher as brechas deixadas pelas empolgantes cenas de ação. Sem se prender somente ao gigantismo visual das criaturas, o diretor Gareth Edwards tenta construir uma trama sólida, equilibrando o drama da família Brody ao aparecimento de Godzilla e sua turma. Contando com a grande entrega do ator Bryan Cranston, muito bem como Joe, toda essa preocupação com o aspecto denso acaba dando uma aparência mais madura ao longa, fato pouco comum em blockbusters. Apesar de Edwards apelar para alguns clichês do cinema catástrofe, incluindo ai crianças e cachorros em perigo iminente, o roteiro opta por tentar criar um vínculo maior entre espectador e personagens. Opção que acaba funcionando, principalmente, com o irreconhecível Aaron Taylor-Johnson. Apesar dos exageros envolvendo o tenente Ford Brody, o ex-Kick-Ass convence como o pseudo-herói da trama. O mesmo, porém, não podemos dizer dos pouco aproveitados David Strathairn, Elizabeth Olsen e Juliette Binoche.


Detalhes que acabam em segundo plano devido ao impressionante trabalho visual na concepção do "novo" Godzilla. Desde a carcaça pontiaguda, passando pelo expressivo urro, e chegando ao corpo mais robusto, tudo nos remete as características icônicas do original de 1954. Seguindo a risca a cartilha dos clássicos filmes de monstros, Gareth Edwards não se apressa em mostrar de maneira banal a sua criatura. Pelo contrário, já que o diretor prioriza a apresentação dos "rivais" num primeiro momento. Dois monstros esguios, com patas gigantescas e uma série de surpresas que logicamente não vou revelar. O curioso é que na tentativa de zelar pelo impacto da primeira aparição de Godzilla, Edwards acaba explorando uma série de situações anticlímax, do tipo que promete, mas não cumpre. Um fato que irrita, eu confesso, até a primeira e impactante aparição do monstro japonês. Pode esperar, vai valer a pena. O mais legal, no entanto, fica pela forma como a trama explora as motivações de Godzilla. Se apegando as regras básicas dos animais, Edwards não tenta - em nenhum momento - humanizar o personagem, ou as suas atitudes. Explorando as noções envolvendo o equilíbrio da natureza, o longa cria o cenário perfeito para que o monstro japonês volte a brilhar nos cinemas.


O aspecto visual, aliás, não se resume as épicas batalhas entre Kaijus. Todo o lado catástrofe é concebido de maneira eficiente, com direito a grandiosos takes aéreos e muita destruição. Destaque para um empolgante plano sequência no aeroporto, que acaba culminando com a primeira grande aparição de Godzilla. Vale destacar também a forma como Gareth Edwards se preocupa em não deixar a presença humana de fora das batalhas. Trabalhando com uma bela noção de simultaneidade, o diretor intercala de forma precisa o grande clímax, permitindo que os personagens possam tem alguma significância dentro do épico desfecho. Tudo isso embalado pela trilha sonora assinada por Alexandre Desplat, que conduz o longa de forma sóbria e original. O destaque negativo, no entanto, fica pelo descartável 3-D. Além de não acrescentar muito a experiência cinematográfica, dependendo da qualidade da projeção, algumas cenas podem ficar ainda mais escuras.
  

Conseguindo suprir boa parte das expectativas que cercavam o projeto, Godzilla é uma ode a mitologia que sempre marcou o personagem. Demonstrando uma invejável maturidade para um estreante em grandes produções, o diretor Gareth Edwards surpreende não só pelo aspecto visual, mas principalmente pela tentativa de propor uma abordagem humana a essa nova versão. Um pequeno algo a mais para a um blockbuster que só precisava ser empolgante. E isso, sem dúvida alguma, o "novo" Godzilla é. 


*Monstros gigantes Japoneses que se popularizaram nos cinemas e na tv após o lançamento do primeiro Godzilla, no ano de 1964.

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