terça-feira, 13 de maio de 2014

Eu, Mamãe e os Meninos

Entre o pastelão e o teatral, comédia francesa se segura no talento - como ator - de Guillaume Gallienne

Aproveitando a celebração do Dia das Mães, a comédia Eu, Mamãe e os Meninos chegou aos cinemas no último fim de semana apoiado pelos cinco prêmios Cesar, o Oscar do Cinema Francês, conquistados neste ano de 2014. Dirigido, estrelado e roteirizado pelo versátil Guillaume Gallienne, o longa busca inspiração nos monólogos teatrais para nos apresentar um inusitado relato autobiográfico da história de vida deste realizador. Se equilibrando entre a comédia pastelão e o interessante drama pessoal, a falta de estabilidade no tom apresentado pelo diretor Gallienne acaba atrapalhando o seu genuíno e impressionante trabalho a frente das câmeras. 

Com consolidada carreira no teatro, Gallienne tem a perspicaz escolha de narrar a sua história através de um monólogo, intercalando peça e vida real. Conseguindo unificar de forma orgânica duas linguagens tão distantes - a do teatro e a do cinema - o realizador opta por levar a sua vida às telas de forma extremamente autoral e corajosa. Muito em função, é verdade, da sua excêntrica escolha: além de reconstruir parte dos seus dilemas a frente das câmeras, ele também opta por interpretar a sua própria mãe. Na trama, baseada em sua peça teatral, Guillaume (Guillaume Gallienne) é um adolescente realmente confuso. Caçula da família, o jovem teve desde cedo a sua feminilidade incentivada pela sua ácida mãe (Guillaume Gallienne). Uma mulher que, frustrada por ter três filhos homens, decide criar o seu caçula como se fosse uma menina. Esse fato, obviamente, acabou gerando uma grande confusão na cabeça de Guillaume, alterando o seu modo de agir e de pensar. Descartado pelo intolerante pai (André Marcon), o jovem colocava um grande ponto de interrogação na cabeça de sua família. Avesso às praticas masculinas, incluindo ai o esporte, a caça, e os amigos, Guillaume parecia saber bem o que queria para a sua vida. No entanto, após sofrer uma "pseudo-desilusão" amorosa, o jovem passa a ficar confuso com relação a sua sexualidade. É ai que o adolescente inicia uma inusitada e divertida jornada de autodescoberta rumo a um destino incrivelmente inesperado.


Levando a sua história para as telonas, Guillaume Gallienne tem um desempenho realmente original enquanto ator. Se apoiando nas piadas mais físicas, que vão de trejeitos afetados à massagens nada ortodoxas, o realizador mostra inteligência e expressividade ao conseguir rir de si mesmo. Hoje com 44 anos, Gallienne convence ao passar por algumas fases de sua vida ao longo de 1 h e 25 de projeção. Apesar de não termos uma noção exata de sua idade em cena, o ator volta a adolescência de forma crível e inspirada. Indo muito bem também nos momentos mais dramáticos, Gallienne realmente impressiona quando dá vida à sua mãe. Em função de todo o seu processo de criação, muito bem mostrado durante o longa, o realizador realmente aprendeu os trejeitos da mãe - e das mulheres num modo geral - durante a juventude. Essa situação, aliás, acaba sendo a grande justificativa para que o ator opte por interpreta-la e consiga um resultado extremamente natural. Na verdade, após duas ou três cenas, já encaramos os dois como personagens completamente distintos. E isso se deve, principalmente, a habilidade de Gallienne em conduzir as transições e os cortes do filme, dando um bom ritmo à trama, e permitindo que "mãe" e "filho" possam contracenar de forma aceitável. Voltando ao elenco, vale destacar as presenças do pai interpretado por André Marcon (O Sequestro de um Herói), da avó vivida por Françoise Fabian (A Bela da Tarde) e da bela Diane Kruger (Bastardos Inglórios), numa rápida e divertida participação.


No entanto, se na atuação Gallienne tem um desempenho quase irreparável, na condução de Eu, a Mamãe e os Meninos as falhas ficam mais claras. Apesar do já citado bom ritmo, o realizador peca por não encontrar o tom certo para o claudicante humor. Flutuando entre o pastelão descartável e a sagacidade europeia, o diretor parece não encontrar muitas alternativas para explorar todo o lado excêntrico de sua história. Os excessivos "chiliques" e devaneios de Guillaume acabam soando repetitivos, tornando arrastadas algumas boas idéias. Ainda que existam alguns momentos realmente hilários, a cena da apresentação no exército é sensacional, e que o roteiro tenha algumas boas sacadas, principalmente quando faz piadas com o estereótipo europeu, o humor não é tão presente quanto prometia. Outro problema mais claro fica pela centralização em torno dos personagens vividos por Gallienne. Apesar do roteiro desenvolver de forma satisfatória as suas indecisões, falta um pouco mais de profundidade nas sub-tramas e em algumas passagens da vida do jovem. As motivações da mãe e a própria infância do personagem, por exemplo, são mal exploradas e impedem uma conexão maior do espectador com essa figura materna. Por outro lado, o acabamento no aspecto dramático é bem melhor resolvido, demonstrando a sutileza que talvez tenha faltado em alguns momentos do longa. Com destaque para a poética e expressiva cena da "libertação".


Ousado e excêntrico, Eu, Mamãe e os Meninos surpreende por nos apresentar uma espécie de narcisismo às avessas. Afinal, ao revelar todo o seu confuso processo de busca por identidade, Guillaume Gallienne se expõe para desconstruir a sua imagem e confessar o quão complexo foi o seu desabrochar sexual. Tudo isso, no entanto, embalado pelo humor mais universal, quase pastelão, que acaba reduzindo - em doses consideráveis - o impacto da versão cinematográfica de sua inusitada história vida.

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