quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Festival do Rio (Fading Gigolo)



Inusitada comédia é dirigida por John Turturro, mas bebe diretamente da fonte dos mais divertidos longas de Woody Allen.

O espectador menos atento pode até se confundir, mas a comédia Fading Gigolo não é assinada pelo cultuado diretor Woody Allen. Na verdade, o filme tem a cara dele, o estilo dele, o humor dele, mas trata-se do quinto trabalho da carreira de diretor de John Turturro, que também estrela e assina o roteiro do longa. E essa comparação não é um demérito para Turturro, já que ele acaba buscando inspiração nos trabalhos certos do experiente realizador, mostra o seu estilo, e consegue construir uma trama original, divertida e em muitos momentos inusitada. Ainda assim, é a presença de Woody Allen o grande destaque do filme. 

E todo este destaque é bem simples de explicar. Turturro concebeu um personagem moldado para Woody Allen. O típico homem que o consagrou. Isso mesmo, aquele norte-americano falador, cheio de ideias mirabolantes, que sempre usa de sua lábia para convencer as pessoas de suas atitudes. A mesma fórmula que parece não envelhecer quando utilizada por Allen. Sem nenhuma enrolação, a trama logo de cara já apresenta a dupla de amigos Murray (Allen) e Fioravante (Turturro). Na verdade, Fioravante trabalhava para Murray em uma livraria de obras raras, mas a falta de clientes acabou fechando o estabelecimento. Sem grandes oportunidades, Murray acaba tendo uma ideia maluca, ao saber que sua médica (Sharon Stone) estava interessada em fazer um "sexo a três" com uma amiga e precisava de um homem de confiança. Acreditando que Fioravante tinha esse "sex appeal", Murray sugere que o amigo aceite o convite em troca de dinheiro. Apesar de relutar no início, ele acaba aceitando e o que era para ser um negócio de uma noite acaba ganhando grande proporção. Num desses "trabalhos" promovidos por Murray, ele acaba conhecendo Avigal (Vanessa Paradis), uma viúva judia com sérios problemas de relacionamento. No entanto, a aproximação entre os três acaba gerando certa polêmica na vizinhança pouco ortodoxa, principalmente no agente de segurança Dovi (Liev Schreiber), que nutre uma paixão platônica por Avigal.


Nas mãos erradas essa curiosa trama poderia virar mais uma comédia pastelão barata, mas Turturro mostra estilo ao conduzir o filme. Principalmente com relação ao seu próprio personagem, um tipo solitário, fechado e culto, que acaba despertando um certo frisson junto às suas clientes. Utilizando enquadramentos que sempre destacam as curvas de suas "pretendentes", o diretor ressalta a atmosfera sexual que envolve o gigolô de forma sútil, sem apelar para a vulgaridade, ou cenas desnecessárias. Se engana, porém, quem acredita que o filme é sobre sexo. Na verdade, Turturro cria essa espécie de conto para tocar em outros temas importantes, como a decadência, a solidão e a infelicidade. Até em cima disso, apesar de uma queda no ritmo durante a parte central do filme, justamente no momento mais denso do longa, o roteiro é equilibrado, conseguindo aliar muito bem a comédia ao drama e explorar, até mesmo, as doses leves de romance. Se no humor, no entanto, o filme funciona com primor, quando chega na parte mais romântica a trama dá uma certa patinada. Na verdade, toda a abordagem envolvendo a personagem de Vanessa Paradis soa interessante, a química entre Turturro e ela é eficiente, mas algo parece não se encaixar. Nada que atrapalhe o resultado final, já que a entrada da personagem Avigal na trama acaba gerando um clímax impagável, envolvendo Woody Allen e judeus ortodoxos. 


O grande acerto de Turturro, porém, acaba sendo na escolha e condução do elenco. A começar, logicamente, por Woody Allen, que apesar de novamente representar o seu típico personagem, aqui funciona mais uma vez graças aos bons diálogos e ao seu humor extremamente leve. Turturro também tem um interessante desempenho, num personagem mais fechado, com ares misterioso, completamente diferente de Allen. Além da dupla, as presenças de Sharon Stone, Sofia Vergara e Vanessa Paradis acrescentam beleza e qualidade ao longa, preenchendo muito bem as brechas do roteiro. Aliás, esperto esse Turturro hein, resolveu dirigir um filme sobre um gigolô, se escalou para o papel, e ainda escolheu para o elenco Stone e Vergara. Brincadeiras à parte, vale destacar ainda as participações de Jill Scott, e de Bob Balaban, hilário como o advogado de Murray. 


Conseguindo repetir o nível das últimas comédias de Woody Allen, Fading Gigolo acaba sendo uma diversão, no mínimo, inusitada. Um trabalho que não se prende a clichês, se tornando extremamente original e sensível. Uma comédia redonda, que mesmo não sendo perfeita, evidencia o amadurecimento de John Turturro atrás das câmeras. O êxito maior, no entanto, fica para Allen, impagável na pele de um cafetão decadente.


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