segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Pele que Habito

Pesado, tenso e original, Almodóvar narra com estilo fábula moderna sobre Frankenstein

De volta ao suspense, após longos anos longe do gênero, o cineasta Pedro Almodóvar mostra porque é um dos mais cultuados diretores da atualidade no surpreendente A Pele que Habito. Trazendo uma fábula moderna do clássico Frankenstein, Almodóvar promove de forma perturbadora, uma poderosa critica a ditadura da beleza. Apostando em uma narrativa pesada, mas repleta de ousadia e sentimento, o espanhol toca em temas complexos e mostra que não é necessário banho de sangue para aterrorizar o espectador.

Adaptação do livro francês escrito por Thierry Jonquet, A Pele que Habito traz a famosa discussão sobre os limites da ciência na tentativa, dessa vez, de se encontrar a beleza perfeita. Se o clássico Frankenstein - lançado pela inglesa Mary Shelley no início do século XIX - narrava a obsessiva luta de um cientista na busca pela criação da vida, a fábula moderna dirigida por Pedro Almodóvar conta a história do Dr Roberto Ledgard (Antonio Banderas), um famoso cientista e cirurgião plástico que passou os últimos anos trabalhando de forma incessante na busca da pele perfeita, um tecido artificial que poderia ser a solução para muitos pacientes com deformidades. Sem medir os limites da ciência, Roberto vai além do permitido e tem todos os seus estudos vetados, quando é descoberta a utilização de genes animais na criação deste tecido artificial. O que os médicos não sabiam, é que Roberto já havia testado a fórmula em humanos, mais precisamente em Vera (Elena Anaya), uma misteriosa paciente que vive na casa do cientista, sob constante vigilância da governanta Marilia (Marisa Paredes). O segredo de Roberto, no entanto, passa a ficar em perigo, quando um visitante indesejado invade a sua casa. A partir daí, os motivos que levaram o médico à incessante pesquisa começam a ser revelados, em uma trama misteriosa e repleta de intensas surpresas, que passam por traições, questões sexuais, amor mórbido e situações perturbadoras.

Dirigido e roteirizado com primor por Pedro Almodóvar, A Pele que Habito é acima de tudo um grande e expressivo filme. Recheado de tensão, o longa aposta em uma narrativa não linear, mas extremamente didática, para contar os motivos que levaram o personagem de Antonio Banderas a esta obsessiva pesquisa pela pele perfeita. Revelando as surpresas de forma gradativa e equilibrada, o diretor tem como grande mérito a manutenção do excelente clima de suspense criado, mesmo quando teoricamente, todas os mistérios da trama já foram esgotados. Explorando o terror psicológico, com a ajuda de uma poderosa trilha sonora composta por Alberto Iglesias, Almodóvar foge das velhas fórmulas do gênero e assombra o espectador graças a cada uma das ações de seus personagens. Esqueça então os sustos exagerados ou a exploração do sangue, que ultimamente tem marcado a estética do medo. Para Almodóvar, o chocante está na ação dos seus personagens e na crueldade com que elas podem ser mostradas.

E isso, aliás, se deve a grande atuação de Antonio Banderas, que após 21 anos, voltou a trabalhar com o diretor espanhol. Com uma interpretação impressionante, Banderas constrói o seu personagem com extrema tensão, indo do rotineiro ao perturbador de maneira brilhante. Exaltando bem cada ação do Dr Roberto, Banderas consegue ser assustador através das suas atitudes, permitindo todo este choque visual criado por Almodóvar. Vale destacar também a ótima atuação de Elena Anaya, que na pele de Vera, consegue construir um personagem expressivo e surpreendente, tendo grande participação no sucesso do longa espanhol. O filme conta ainda com a experiente Marisa Paredes, que apresenta uma interpretação segura, tendo também função de destaque dentro da trama.

Mas nem tudo são flores no novo longa de Almodóvar. O roteiro, apesar da sua ótima evolução, tem algumas falhas e, em determinados momentos, abusa das excentricidades. Mesmo conhecendo o estilo do diretor espanhol, a aparição do personagem Zeca é quase caricata, tirando um pouco do peso das cenas em que ele está envolvido. Outro excesso, fica pelo certo didatismo com que Almodóvar apresenta os momentos de flashback, com direito a letreiros gigantes para contextualizar o espectador. O que acaba, aliás, contrastando com a própria fórmula do filme, que não se prende a explicações fúteis, deixando nas mãos dos personagens o rumo da trama através de seus atos.

Equívocos que não diminuem os méritos de A Pele que Habito. Um filme complexo, que vai do bizarro ao sublime, em uma trama repleta de questões polêmicas muito bem exploradas por Almodóvar. Afinal, quais seriam os limites da ciência ?

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