quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Da carpintaria para o estrelato, Harrison Ford chega aos 75 anos colecionando sucessos e grandes personagens


Grandes astros não saem de moda. A paciência nas entrevistas pode não ser mais a mesma, o peso da idade é nítido, o mau humor se tornou recorrente, mas Harrison Ford segue, aos 75 anos, entre os grandes de Hollywood. Responsável por dar voz a alguns dos personagens mais queridos da cultura pop, entre eles o icônico mercenário Han Solo, o intrépido arqueólogo Indiana Jones e o indomável caçador Rick Deckard, o veterano estabeleceu a sua carreira na segunda metade da década de 1970 e desde então nunca deixou os holofotes. Antes disso, porém, ele quase desistiu da carreira. Um dos mais prestigiados nomes da sua geração, Ford iniciou a sua trajetória no final da década de 1960, conseguindo pequenos papéis em títulos como O Ladrão Conquistador (1966), A Grande Cilada (1967) e Seis não Regressaram (1968). Desiludido com a falta de oportunidades, o ator se deparou com um mercado pouco convidativo, o que o fez repensar o rumo da sua vida. Casado e com dois filhos para criar, Ford decidiu também se dedicar a carpintaria, sem saber que esta nova função seria decisiva para o seu sucesso. Após trabalhar com nomes como o músico brasileiro Sérgio Mendes (veja na foto abaixo) e com a banda The Doors, um dos seus clientes o apresentou ao realizador que viria a redefinir a sua carreira: o aclamado George Lucas.



Mesmo reticente quanto o seu futuro como ator, Harrison Ford foi escalado para a bem sucedida comédia Loucuras de Verão (1973), um daqueles 'hits' juvenis responsáveis por definir os anseios de uma geração. Dividindo a tela com nomes como os de Richard Dreyfuss (Contatos Imediatos de 3º Grau) e Ron Howard (Uma Mente Brilhante), o astro de Indiana Jones não figurou entre os protagonistas, mas causou uma ótima impressão ao interpretar o carismático Bob Falfa. O tão esperado primeiro grande papel de sucesso, entretanto, não chegou tão facilmente. Após trabalhar com o então ascendente Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão) no excelente suspense psicológico A Conversação (1974) e em alguns pequenos papéis na TV, entre eles uma pontual participação na popular série Kung-Fu (1972-1975), Harrison Ford se deparou com a chance da sua vida ao cruzar novamente o caminho de George Lucas. Contratado apenas para ler falas durante os testes para a escolha do elenco de Star Wars (1977), ele se saiu tão bem como o malandro Han Solo que o diretor não titubeou ao escala-lo nesta audaciosa ópera espacial. Na pele de um mercenário dúbio envolvido num conflito entre rebeldes, Jedi e a figura opressiva do Império, o ator "caiu de paraquedas" num verdadeiro fenômeno pop, dando vida a um dos personagens mais populares deste cultuado universo. Para a surpresa da grande maioria dos envolvidos no projeto, Star Wars se tornou a maior bilheteria da história do cinema até então ao faturar US$ 775 milhões ao redor do mundo, estabelecendo novos paradigmas para a indústria ao pavimentar de vez a estrada do universo blockbuster.


Apesar desta mudança de status da "noite para o dia", Harrison Ford seguiu buscando o seu lugar ao sol nos anos seguintes. Após estrelar os esquecíveis O Comando 10 de Navarrone (1978) e Amor em Chamas (1979), ele voltou a "pisar" numa grande (e complicada) produção no aclamado Apocalipse Now (1979). Embora com um personagem menor, o Coronel Lucas, Ford viu a sua filmografia ganhar estofo ao dividir o set com nomes como os se Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen e (novamente) Francis Ford Coppola, mostrando que estava no caminho certo rumo ao sucesso. Foi na virada dos anos 1970 para a década de 1980, no entanto, que Harrison Ford colocou o seu nome entre os mais populares de Hollywood. E olha a sequência que ele emplacou. Convivendo com a incerteza e a falta de oportunidade no início da sua carreira, o ator "enfileirou" cinco estrondosos 'hits' de público e crítica em sequência, se tornando parte integrante da cultura pop oitentista. Ainda convivendo com o triunfo do primeiro Star Wars, Ford retornou ao universo idealizado por George Lucas no magnífico Star Wars: O Império Contra-Ataca. Considerada por muitos críticos uma das melhores continuações da história da Sétima Arte, o longa dirigido por Irvin Kershner conseguiu ampliar o mito em torno da franquia, dando ao ator a possibilidade de brilhar novamente na pele de Han Solo. No ano seguinte, porém, a sua carreira alcançou um novo patamar com a estreia de Os Caçadores de Arca Perdida (1981). Sob a batuta de Steven Spielberg, Harrison Ford abraçou de vez o universo pop ao encarar o arqueólogo Indiana Jones, um personagem indômito e genuinamente carismático que caiu quase que instantaneamente nas graças do público. Com um visual icônico e um charme indescritível, o astuto 'Indie' não só reaqueceu as engrenagens do gênero aventuresco, como influenciou uma série de outros títulos, um modelo de protagonista ainda hoje influente\copiado em Hollywood. Não à toa, Indiana Jones foi eleito o segundo maior herói de todos os tempos pela American Film Institute e o personagem mais popular da história do cinema pelos leitores da respeitada revista Empire.


No modo 'on-fire', Harrison Ford adicionou mais um inesquecível personagem à sua filmografia em Blade Runner (1982). Por mais que na época do lançamento o filme dirigido por Ridley Scott tenha se tornando um imenso fracasso comercial, leia mais sobre o tema clicando aqui, o ator "saiu ileso" ao interpretar o caçador de androides Rick Deckard. Uma das peças da reflexiva alegoria proposta pelo realizador britânico e inspirada na obra do popular escritor Philip K. Dick, Ford interiorizou os dilemas morais do agente com uma enorme carga dramática, um predicado que ajudou a ampliar os debates e impacto da produção no futuro. Impulsionado pelo mercado 'home vídeo', Blade Runner logo ganhou um status 'cult' e ainda hoje reverbera junto aos fãs da ficção-científica. Sem tempo a perder, Ford seguiu ostentando popularidade ao estrelar o tão aguardado Star Wars: O Retorno de Jedi (1983), longa que marcou o desfecho da trilogia clássica concebida por George Lucas. Embora não esteja no mesmo nível dos dois primeiros filmes da série, o então último filme arrematou a jornada de Han Solo em grande estilo, se tornando um grande sucesso de público nos EUA. Por muito pouco, porém, Ford não ficou de fora desta continuação. Contratado em baixa para o primeiro Star Wars, o ator só tinha firmado contrato para mais uma sequência. Nos anos seguintes, porém, o seu "passe" ganhou um novo valor com o êxito comercial de Os Caçadores da Arca Perdida, o que encareceria o custo de produção de O Retorno do Jedi. Temendo pela sua ausência, Ford chegou a sugerir uma pequena aparição, uma morte redentora dentro do primeiro ato. Para a felicidade dos fãs, entretanto, George Lucas bateu o pé, pagou o que era devido e deu a Solo o protagonismo necessário para o triunfante "desfecho" da saga do clã Skywalker. Com fôlego de sobra, Harrison Ford fechou esta poderosa "quina" com o lançamento de Indiana Jones e O Templo da Perdição (1984), uma prequel empolgante que chancelou a "marca" ao faturar expressivos US$ 333 milhões ao redor do mundo.


Após se dedicar por quase cinco anos ao cinema pipoca, Harrison Ford resolveu usar o seu inabalável prestígio e passou a escolher projetos mais autorais. Embora tenha fechado a década de 1980 estrelando o fantástico Indiana Jones e A Última Cruzada (1989), dividindo a tela com o talentoso Sean Connery num blockbuster leve e empolgante, o ator mostrou a sua até então pouco explorada versatilidade ao transitar entre outros gêneros com enorme naturalidade. Sob a batuta de Peter Weir (O Show de Thruman), Ford entrou no radar das grandes premiações com o thriller A Testemunha. Na pele de um policial ferido obrigado a proteger um garoto num vilarejo Amish, ele conquistou a sua única indicação ao Oscar, mostrando que estava preparado para brilhar em outros segmentos. Em busca de papéis mais variados, Ford estrelou a aventura dramática A Costa do Mosquito (1986), o elogiado suspense Busca Frenética (1988), do diretor Roman Polanski, a inteligente comédia Uma Secretária do Futuro (1988), o thriller Acima de Qualquer Suspeita (1990) e o tocante romance dramático Uma Segunda Chance (1991). Este último, aliás, ajudou a revelar outro grande nome de Hollywood, o então roteirista Jeffrey Adams, hoje popularmente conhecido como J.J Abrams (Super 8). Com a chegada dos anos 1990, Harrison Ford voltou a ganhar um personagem marcante no thriller de ação Jogos Patrióticos (1992). Inspirado na série de livros de Tom Clancy, o astro substituiu o "Drº Jones" Sean Connery (Caçada ao Outubro Vermelho) ao dar vida a segunda (e mais popular) versão do agente da C.I.A, se estabelecendo num gênero que viria a se tornar recorrente na sua filmografia. O seu grande trabalho na década de noventa, entretanto, viria no ano seguinte com o lançamento de O Fugitivo (1993). Recebido com entusiasmo pelo público e pela crítica, o longa colocou Ford como um médico acusado de assassinato obrigado a correr contra o tempo (e a policia) para comprovar a sua inocência. Indicado ao Oscar de Melhor Filme, fato raríssimo dentro do cinema de ação, O Fugitivo se tornou mais um sucesso comercial na carreira do ator, faturando expressivos US$ 368 milhões globalmente.


Em mais uma sequência afiada, após brilhar em Jogos Patrióticos e O Fugitivo, Harrison Ford voltou a encarnar o agente Jack Ryan no elogiado Perigo Real e Imediado (1994). Novamente dirigido por Phillip Noyce, o longa mostrou que o ator já era também uma rentável estrela do cinema de ação, o que ficou bem claro com os US$ 215 milhões arrecadados ao redor do mundo. Com o prestígio necessário para escolher os melhores projetos à sua disposição, Ford seguiu transitando entre os gêneros em títulos como a charmosa comédia Sabrina (1995), o instigante thriller Inimigo Íntimo (1997), onde dividiu a tela com o também estrelar Brad Pitt, e a esquecível aventura Seis Dias, Sete Noite (1998). Antes disso, porém, ele deu vida a uma das mais populares versões do presidente dos EUA no excelente Força Aérea Um (1997). A última linha de defesa diante de uma perigosa ameaça terrorista em pleno ar, Harrison Ford mostrou fôlego de sobra aos 54 anos, esbanjando fisicalidade no angustiante longa do virtuoso diretor Wolfgang Petersen (O Barco). Impulsionada pela presença do astro, a película faturou fantásticos US$ 315 milhões mundialmente, se tornando um dos seus últimos grandes sucessos na década de 1990. Na vida real, aliás, Ford tem licença de piloto e vira e mexe apronta das suas no ar. Após sofrer um acidente de avião durante um pouso forçado em 2015, quando pilotava um modelo da Segunda Guerra Mundial, ele quase causou uma grande colisão aérea no início deste ano ao, por confusão, pousar numa pista "ocupada" passando perto de um Boeing da American Airlines com 110 passageiros. E isso aos 75 anos. Gosta de uma aventura o Srº Ford!

O aguardado retorno da trinca Indiana Jones, Han Solo e Rick Deckard



Na transição para o novo século, porém, Harrison Ford começou a (finalmente) se deparar com os tão comuns altos e baixos na carreira de um ator. Após dar prejuízo com o detonado Destinos Cruzados (1999), ele emplacou um novo sucesso comercial no suspense Revelação (2000). Seguindo a linha O Sexto Sentido (1999), o diretor Robert Zemeckis investiu num suspense marcado pelos 'plot twists', oferecendo aquilo que o público da época queria ver. Com a talentosa (e inesgotável musa) Michelle Pfeiffer em grande forma, o longa somou US$ 291 milhões mundialmente, reforçando que Ford ainda era capaz de levar o grande público aos cinemas em produções originais. Sem nunca renegar o peso da idade, o agora veterano chegou aos 60 anos em ótima forma, se "adequando" a sua nova realidade em títulos como o tenso drama de guerra K-19 (2002), o subestimado thriller de ação Divisão de Homicídios (2003) e o lucrativo suspense cibernético Firewall: Segurança em Risco (2006). Eis que, para a surpresa de muitos, Harrison Ford topou retornar ao seu principal personagem em Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal (2008). Impecável ao criar uma versão do arqueólogo mais "prejudicada pelo tempo", o longa agradou a crítica americana com uma pegada familiar, uma excelente antagonista (Cate Blanchett) e ótimas sequências de ação. Por mais que a relação com o seu "filho" Shia LaBeouf não tenha funcionado, o novo filme da franquia atestou a força de 'Indie' ao faturar magníficos US$ 786 milhões ao redor do mundo, um desempenho potencializado pela óbvia presença do veterano astro. Diferente da maioria, aliás, eu sigo achando o "novo" Indiana Jones uma aventura divertidíssima e condizente com o legado da saga. Impulsionado pelo êxito deste gigantesco blockbuster, Ford seguiu produzindo em grande escala, elevando o nível de obras esquecíveis como Território Restrito (2009), Decisões Extremas (2010) e Conexão Perigosa (2013). Neste meio tempo, no entanto, o astro também acertou ao interpretar uma versão própria sua na adorável comédia jornalística Uma Manhã Gloriosa (2010), e ao emprestar o seu "status" no elogiado drama esportivo 42: A História de uma Lenda (2013) e no subestimado Ender's Game (2013).


A sua carreira, porém, virou de cabeça para baixo em outubro de 2012 quando a Disney, do alto do seu poder, anunciou a compra da Lucasfilm e o lançamento do inesperado Star Wars: Episódio VII (2015). Além de cair como uma bomba junto aos fãs do universo pop, a confirmação gerou uma incrível expectativa em torno do projeto, um frisson saciado aos poucos com o anúncio do elenco, a divulgação do primeiro trailer e o lançamento do extraordinário O Despertar da Força. Numa (mais uma) coincidência do destino, Ford voltou a trabalhar com J.J Abrams após quase vinte e cinco anos, brilhando numa película nostálgica, reverente e empolgante. Um reboot com alma original. Um dos pilares do longa, o lendário Han Solo "voltou para casa" em grande estilo, culminando em algumas das sequências mais emotivas da franquia. Recebido com empolgação nos quatro cantos do globo, o novo Star Wars abalou as estruturas da indústria ao faturar espantosos US$ 2,06 bi ao redor do mundo, se tornando a terceira maior bilheteria da história do cinema. Ao contrário da grande maioria dos protagonistas de grandes franquias, no entanto, o retorno de Ford ao seus principais papéis se deu de maneira extremamente natural. Um exemplo de administração de carreira, o veterano manteve a sua popularidade ao longo de cinco décadas, cruzando o caminho de grandes realizadores e inesquecíveis personagens sem precisar "apelar" para títulos genéricos e\ou projetos caça-níquéis.


O que fica bem claro com o lançamento de Blade Runner 2049 (leia a nossa crítica aqui), a sequência do clássico de 1982 dirigida por Denis Villeneuve e coestrelada pelo igualmente carismático Ryan Gosling. Trinta e cinco anos após o lançamento do cultuado longa original, Harrison Ford se diz intrigado com o rumo do seu personagem e explicou os motivos que o levaram a retornar a este reflexivo universo. "O personagem [Rick Deckard] é tecido na história de uma maneira que me intrigou. Existe um contexto emocional muito forte. A relação entre Deckard e outros personagens é fascinante. Penso que é interessante desenvolver um personagem após um período de tempo - revisitar um personagem", revelou o ator em entrevista ao IMAX Q&A. Além de se mostrar completamente à vontade na sua fase atual, Harrison Ford tem cada vez mais exibido a sua personalidade forte e o seu humor "peculiar", vide as suas extraordinárias entrevistas ao programa Fantástico e Graham Norton Show (vídeo abaixo), revelando um misto de convicção e relaxamento que só reforçam as nossas certezas quanto ao triunfo dos seus audaciosos novos projetos. E, cá entre nós, a essa altura do jogo e com um currículo destes, não é muito difícil entender os motivos que fizeram este verdadeiro colecionador de sucessos conquistar este raríssimo "status" em Hollywood. 

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