quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Conspiração e Poder

As agruras do jornalismo político

Inspirado numa densa história real, Conspiração e Poder se revela um relato humano sobre os bastidores de uma polêmica reportagem do respeitado telejornal 60 Minutos. Ainda que peque pela falta de ousadia enquanto instrumento de crítica, o longa dirigido e roteirizado por James Vanderbilt (Zodíaco) é imparcial ao investigar os detalhes por trás da realização de uma matéria contra o então candidato a reeleição George W. Bush, escancarando as agruras do jornalismo investigativo ao expor o quão espinhoso poder ser o campo de ação destes abnegados repórteres. Através de uma premissa naturalmente instigante, o realizador esbanja categoria ao acompanhar não só o 'modus operandi' dos jornalistas, como também o escuso processo de descaracterização da denúncia apresentada, se esquivando das respostas fáceis ao introduzir este complexo caso sob um ponto de vista íntimo, ambíguo e universal. 



Com base no livro 'Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power was published', escrito pela própria autora da denúncia, a jornalista Mary Mapes (Cate Blanchett), James Vanderbilt é inicialmente habilidoso ao reproduzir os bastidores desta apressada matéria. Embora não questione a veracidade dos fatos apresentados no programa, uma reportagem que, às vésperas da eleição de 2004, acusou o presidente George W. Bush de ter utilizado o poder de influência para não servir na Guerra do Vietnã, o realizador esbanja energia ao revelar tanto o árduo esforço dos jornalistas na busca pelas informações para a realização da matéria, quanto a precipitação dos mesmos diante da possibilidade de dar um "furo" que poderia mudar o rumo da corrida eleitoral norte-americana. Apesar do foco obviamente estar na figura da protagonista, o diretor não se faz de rogado ao investigar este tema sob um prisma imparcial, dando ao público os ingredientes necessários para que o espectador possa formar a sua opinião quanto o assunto. Uma sacada sagaz e realmente inteligente que, diga-se de passagem, só potencializa o elemento humano em torno da película. Sem a intenção de encontrar respostas ou culpados, Vanderbilt mostra um inegável fascínio pelo drama dos personagens, pela reação dos envolvidos no momento em que a história começa a ser refutada. Nas entrelinhas, inclusive, o diretor é cuidadoso ao levantar questões em torno do passado da jornalista, nos fazendo crer na sua forte convicção e na sua sincera relação com o veterano âncora do telejornal, o respeitado Dan Rather (Robert Redford). 


Melhor ainda, aliás, é a maneira completa com que o filme traduz o quão complexa é a missão de um jornalista investigativo. Indo além do 'modus operandi', o argumento assinado pelo próprio James Vanderbilt joga uma bem-vinda luz sobre temas como o jogo político, o corporativismo empresarial e os interesses escusos por trás dos executivos dos grandes veículos de comunicação. Por mais que não tenha a contundência de títulos como O Informante e O Mensageiro, o longa realça os obstáculos enfrentados pelos jornalistas com um afiada dose de ambiguidade, evitando apontar a sua mira para a ou b ao mostrar as repentinas mudanças de opinião, o desamparo institucional e a perigosa influência de terceiros após o estardalhaço do material divulgado. Na transição do segundo para o último ato, inclusive, o realizador é sutil ao ressaltar o clima de conspiração em torno do caso, um elemento subjetivo que adiciona um tempero mais apimentado. O grande trunfo do filme, porém, reside no seu pano de fundo virtual e na maneira com que a trama dialoga com um assunto muito presente na nossa realidade: a guerra política na internet. Mesmo pontualmente, Vanderbilt é impecável ao traduzir o impacto de uma notícia deste porte num ambiente cada vez mais parcial e hostil. Entre xingamentos baratos e acusações infundadas, o roteiro faz questão de mostrar o quão sujo e reducionista é o processo de desqualificação de uma denúncia ou de um jornalista. Um tema por si só interessante, principalmente num cenário em que um repórter político pode, num exemplo bem contextualizado, ser facilmente reduzido ao rótulo de "coxinha" ou "petralha".  


Quanto o assunto é a crítica propriamente dita, no entanto, Conspiração e Poder peca pela falta de coragem. Na ânsia de reproduzir a cruzada de Mary Mapes, James Vanderbilt subaproveita, dentre outras coisas, os questionamentos em torno dos interesses dos executivos da CBS e a pressão política em torno da denúncia. Sem provas concretas, o realizador aposta exageradamente no poder da sugestão ao se voltar contra os grandes veículos de comunicação, reduzindo o tema a um discurso inflamado do idealista produtor Mike Smith (Topher Grace, a vontade em cena) e a uma divagação final do experiente Dan Rather. Num todo, aliás, o argumento vacila ao traduzir as consequências desta reportagem na rotina dos envolvidos. Estruturalmente previsível, o longa flerta com o tom reverencial ao pontuar a jornada da protagonista, entregando um desfecho idealizado que não parece combinar com a severidade dos fatos. 


Em contrapartida, conduzidos com elegância por James Vanderbilt, o talentoso elenco imprime em tela a obstinação e o vigor necessários para dar corpo a uma premissa deste nível. Radiante em cena, Cate Blanchett absorve o senso de integridade e a determinação da sua repórter, indo da persuasiva à impotente com enorme propriedade. No mesmo nível da sua parceira de cena, Robert Redford surge magnético em cena na pele do lendário Dan Rather, nos fazendo enxergar o respeito conquistado pelo seu personagem ao longo da sua carreira. Assim como os dois, aliás, o elenco de apoio cumpre a sua missão sem grandes dificuldades, com destaque para o executivo dúbio interpretado por Bruce Greenwood, o confiante consultor de Dennis Quaid e o fragilizado informante de Stacy Keach. Dito isso, fazendo um excelente uso do fator humano, Conspiração e Poder mostra propriedade ao realçar a desproteção de um jornalista investigativo, uma profissão que, diante da desvalorização e dos interesses escusos aqui mostrados, tem se tornado um artigo de luxo nas grandes redações.

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