terça-feira, 7 de julho de 2015

Meu Passado me Condena 2

Mantendo o bom nível do original, continuação não se contenta com a repetição de fórmulas


Questionando com bom humor os problemas envolvendo a rotina de um casamento, Meu Passado me Condena 2 segue por um caminho interessante ao avançar na relação do adorável e incompatível casal vivido por Fábio Porchat e Miá Mello. Após narrar as idas e vindas dos dois durante a inusitada lua de mel em um cruzeiro, a competente diretora Julia Rezende (Ponte Aérea) é habilidosa ao construir um curioso cenário para esta sequência, fazendo um belo uso da bucólica paisagem portuguesa para acompanhar as desventuras da dupla diante de uma relação prestes a ruir. Indo bem além da hilária e reconhecida verborragia de Porchat, que segue sendo o grande diferencial desta franquia, a continuação nitidamente se esforça para não recorrer somente às fórmulas que consagraram o popular primeiro longa, adicionando um pouco mais de romance e maturidade a esta honesta e divertida discussão de relacionamento. 

Encontrando no conservadorismo de um casal lusitano uma alternativa perspicaz para discutir os papéis de homens e mulheres dentro de uma relação, o roteiro assinado por Tati Bernardi atrai pela forma como evita condenar as atitudes dos seus protagonistas. Apostando em personagens retilíneos, mas nada unidimensionais, a trama brinca habilmente com as características de cada um deles, com os seus erros e acertos, os tornando completamente humanos e cativantes. Evitando se apoiar em soluções mirabolantes, o eficiente argumento narra a primeira grande crise de Fábio e Miá, que após três anos de casados estão prestes a se separar. Incomodado com o desleixo e a imaturidade do marido, Miá resolve pedir um tempo, mas acaba surpreendida com a notícia da morte da avó de Fábio. Tirando proveito da situação para tentar reconquistar a esposa, ele parte para um pequeno vilarejo de Portugal, onde reencontra o seu querido e agora viúvo avô Nuno (Antônio Pedro). Disposto a corrigir os seus erros, o desastrado Fábio acaba esbarrando nas suas próprias boas intenções, se afastando cada vez mais do grande amor de sua vida. A sua situação, porém, só piora quando ele se depara com a linda e gentil Ritinha (Mafalda Rodiles), um amor da juventude que esta perto de se casar com o bronco Álvaro (Ricardo Pereira).


Indo além dos estereótipos já bem delineados no primeiro longa, Meu Passado me Condena 2 é preciso ao se aprofundar nas imperfeições comportamentais de Fábio e Miá. Promovendo uma nítida inversão de abordagem, desta vez é o passado do descompromissado marido que parece querer condenar este casamento, o competente roteiro levanta uma série de rotineiras discussões, daquelas que só facilitam a conexão entre público e personagens. Sem apelar para as grandes transformações ou para as clichês jornadas de redenção, Tati Bernadi sai em defesa do respeito à individualidade, deixando uma leve e divertida mensagem de compreensão ao não escolher lados nesta história. Na verdade, se no primeiro longa a balança parece pesar para a ingenuidade de Fábio, nesta continuação os dois protagonistas são desenvolvidos de maneira mais humana e amadurecida, valorizando assim as boas atuações de Porchat e Mello. Isso, logicamente, sem esquecer do humor, que ganha corpo nas atrapalhadas tentativas de Fábio para reconquistar o amor e a paciência de Miá. Através de um texto simples e esperto, que acaba potencializado pelas hilárias improvisações de Porchat, o principal trunfo desta sequência fica pela introdução do núcleo lusitano, com destaque para o casal vivido pela talentosa Mafalda Rodiles, de longe a grande surpresa da projeção, e pelo eficaz Ricardo Pereira. Questionando alguns dos mais enraizados dogmas de uma relação, Julia Rezende usa o machismo cultural de Álvaro para levantar também uma bandeira em prol da igualdade de gêneros, fazendo desta sacada inteligente um bem sucedido alicerce para a trajetória de Fábio e Miá.


Tirando o máximo proveito do qualificado elenco de apoio, da redonda premissa e da iluminada fotografia lusitana assinada por Dante Belluti, Meu Passado me Condena 2 acerta ao não se concentrar somente no humor verborrágico de Fábio Porchat, abrindo espaço para uma série de justas e divertidas discussões a cerca dos relacionamentos modernos. Mesmo se rendendo a algumas preguiçosas soluções típicas das continuações, como a forçada volta do casal de tripulantes interpretado por Marcelo Valle e Inez Viana, a talentosa Julia Rezende - do ótimo Ponte Aérea - equilibra aqui com maior precisão a comédia e o romance, mostrando neste novo trabalho uma dose de amadurecimento incompatível com o seu protagonista.

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