terça-feira, 9 de junho de 2015

Tomorrowland - Um Lugar onde Nada é Impossível

Recheado de boas intenções, longa deixa mensagem de esperança para as novas gerações


Apresentando o conceito de futuro idealizado por Walt Disney, e que serviu como inspiração para um popular parque temático, Tomorrowland - Um Lugar onde Nada é impossível nada contra a corrente ao encarar de maneira positiva o nosso "amanhã". Em meio à recorrência de franquias distópicas e\ou pós-apocalípticas, capitaneadas por títulos como Mad Max, Jogos Vorazes, Matrix e pela série The Walking Dead, o estúdio resolveu se apegar aos seus ideais mais enraizados ao promover uma jornada por uma realidade onde a esperança e os sonhos são a força motora da civilização. Contando com um interessante trabalho da equipe de marketing, que se esforçou ao máximo para proteger os segredos por trás da premissa, o expressivo diretor Brad Bird (Missão Impossível - Protocolo Fantasma) faz o possível para que o mistério em torno do argumento verdadeiramente impressione, mas no papel o que vemos é um desenrolar incompatível com tamanha expectativa. Ainda assim, apesar das simplistas reviravoltas, Tomorrowland se comprova como uma aventura à altura do padrão Disney, encontrando a sua essência não só no impecável visual, mas principalmente no dinâmico elenco e nas necessárias críticas escondidas nesta otimista história. 


Optando por uma abordagem inocente e cheia de boas intenções, o oscilante argumento assinado por Bird e Damon Lindelof (Lost, Guerra Mundial Z) merece elogios pela forma como dialoga convincentemente com o ardiloso gênero Sci-Fi. Mesmo se escorando em alternativas convenientes em alguns momentos, com destaque para as ingênuas soluções envolvendo o último ato, o roteiro surpreende ao defender conceitos e ideais que não costumam ganhar corpo num 'blockbuster' de US$ 190 milhões de orçamento. Promovendo um interessante duelo entre o otimismo e o pessimismo desde a perspicaz introdução, quando os dois protagonistas discutem qual será a melhor abordagem para esta história, a trama narra a jornada de Casey (Britt Robertson), uma obstinada filha de um engenheiro da Nasa que está prestes a ser demitido. Lutando para manter o trabalho do pai, a inteligente garota é detida pela policia ao invadir um terreno e impedir a desmontagem do equipamento que servia como o "ganha pão" da sua família. O que era pra ser um problema, no entanto, acaba ganhando contornos de salvação quando ela entra em contato com um misterioso broche, vislumbrando um futuro hi-tech e absolutamente fantástico. Disposta a encontrar uma explicação para tal visão, Casey resolve fugir de casa e contando com a ajuda da enigmática Athena (Raffey Cassidy) encontra o ranzinza Frank Walker (George Clooney). Ávida pela possibilidade de chegar a esse local, a jovem então terá que convencer este amargurado homem a deixar as suas frustrações de lado e voltar a Tomorrowland, sem saber que nesta realidade aparentemente perfeita pode residir o maior dos seus medos.


Alimentando habilmente os enigmas em torno de Tomorrowland, e das motivações que levaram Athena a unir os caminhos de Casey e Frank, é inegável que grande parte da força deste longa reside nesta aura misteriosa. Brad Bird envolve o espectador ao desenvolver de maneira gradativa as questões relacionadas ao gênero Sci-Fi, fugindo das explicações baratas ao revelar tanto os segredos por trás deste "futuro" tecnológico, quanto a relação dos personagens com este particular universo. Toda a cuidadosa construção deste cenário, no entanto, esbarra nas intenções ideológicas da Disney, que encontra neste horizonte positivo um caminho para alimentar as suas já conhecidas lições de moral. Na verdade, a impressão que fica é que para defender estas ideias, o roteiro é obrigado a recorrer à soluções infantis e sentimentalistas, causando certa confusão ao passear superficialmente pelas questões Sci-Fi propostas ao longo da trama. Sem dúvida alguma um pecado, já que até então a película era original ao lidar com temas como o paralelo entre dimensões e a relação entre tempo e espaço. Por outro lado, acostumado a brilhar nas animações, Bird demonstra absoluta perícia ao construir esta realidade chamada Tomorrowland. Fazendo um excelente uso do CGI, o realizador impressiona ao explorar o fantástico mundo, dando contornos particulares a este cenário recheado de grandes torres, de estradas insinuantes e de trens que mais parecem uma montanha russa. Pra ser bem sincero, a fantástica sequência de apresentação da "cidade", com o jovem Frank (Thomas Robinson) bailando pelo ar com uma mochila a jato, não só vale o ingresso, como também mostra o extremo perfeccionismo de Bird na construção das cenas mais aventureiras. 


Em meio à complexidade da ficção científica, Tomorrowland se destaca também pela forma honesta com que aborda as questões mais humanas. A partir de personagens interessantes e da impecável dinâmica entre eles, Bird encontra no tipo sonhador uma forma de defender esta visão otimista de futuro. Apostando numa protagonista feminina, o que felizmente tem cada vez mais se tornado recorrente, o diretor é habilidoso ao desenvolver cada uma das tramas, as interligando de maneira realmente fluída. A começar pela jovem Casey, que ganha contornos vibrantes nas mãos de Britt Robertson (Cake). Ainda que a sua jornada não seja a das mais elaboradas, confesso que inicialmente me senti frustrado quando o foco da narrativa "abandona" o jovem Frank, a atriz vira o jogo ao encarar com atitude e energia a missão de ser a representante do ideal positivo defendido pela Disney. Enquanto Britt esbanja simpatia, Clooney (Gravidade) mostra o seu talento ao ressaltar a amargura de Frank. Num personagem bem mais complexo, o experiente ator traz um inegável peso a essa aventura, indo bem além da ferramenta introdutória neste futuro hi-tech. Fazendo um belo uso da incompatibilidade de gênios, a relação entre Casey e Frank é altamente agradável, muito em função das divertidas discussões entre os dois. O grande trunfo do longa, porém, fica pela jovem Raffey Cassidy, de longe o principal acerto do argumento. Num personagem recheado de camadas, Cassidy rouba completamente a cena ao capturar os trejeitos da sua enigmática Athena, impressionando pela relação madura com Frank. Outro destaque fica pelo antagonista vivido por Hugh Laurie (Dr. House), um tipo interessante que é subaproveitado pela trama ao ganhar contornos unidimensionais. Com ideais fortes e coerentes, é através dele que Bird crítica a inércia do indivíduo perante a própria destruição, levantando uma necessária bandeira em defesa do meio ambiente. 


Contando ainda com a singela trilha sonora de Michael Giacchino (Up - Altas Aventuras) e com a fotografia clean de Claudio Miranda (As Aventuras de Pi), Tomorrowland - Um Lugar onde Nada é Impossível coloca em cheque o pessimismo de Hollywood com relação ao nosso futuro, deixando uma mensagem de esperança e um voto de confiança nas novas gerações. Se equilibrando habilmente entre o Sci-Fi e a aventura, esta grandiosa produção surpreende ao se revelar arriscadamente inocente, evidenciando a coragem e a disposição do estúdio ao promover o protótipo de futuro idealizado por Walt Disney. Mesmo sem oferecer a surpresa sugerida durante as primeiras prévias, Brad Bird constrói uma jornada digna e extremamente bem intencionada, defendendo com um exagerado afinco os ideais que consagraram a Disney como uma verdadeira fábrica de sonhos. Um lugar de fantasia e imaginação que, tal qual Tomorrowland, está a disposição daqueles que ainda acreditam na magia do cinema.

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