terça-feira, 23 de junho de 2015

Enquanto Somos Jovens

Uma ácida e oscilante critica às novas gerações

Reconhecido dentro do cenário 'indie' por títulos como o elogiado A Lula e a Baleia (2005), o competente O Solteirão (2010) e o adorável Frances Ha (2013), Noah Baumbach volta a falar sobre o amadurecimento no ácido Enquanto Somos Jovens. Se distanciando de maneira oscilante da atmosfera leve dos seus principais trabalhos, o criativo diretor utiliza um casal em plena crise de meia idade para promover um bem humorado questionamento envolvendo o descompromisso, a imaturidade e o vazio das novas gerações. Procurando debater sobre a dificuldade de se abrir mão das mais enraizadas convenções sociais, Baumbach opta por colocar em cheque o seu principal publico alvo, encontrando no aparente desapego dos 'hipsters' o alvo ideal para uma interessante, esperta, mas generalizada crítica àqueles que parecem renegar a sua própria geração\ identidade.


Classificando a juventude como um estado de espírito, o argumento assinado pelo próprio diretor é brilhante ao defender que os males desta fase podem também acometer os mais experientes. Através de um particular choque de realidades, potencializado pelas expressivas atuações de Ben Stiller (Uma Noite no Museu) e Adam Driver (Será Que?), Noah Baumbach levanta uma série de interessantes reflexões existenciais sobre a maturidade e a vida adulta, mostrando os caminhos escolhidos pelos "novos" e "velhos" jovens na busca pela autoafirmação. Expondo a partir de uma curiosa amizade todas as incoerências destas duas gerações, o roteiro conta a história de Josh (Stiller) e Cornélia (Naomi Watts), dois quarentões bem casados em busca de um rumo para as suas rotinas. Afastados dos melhores amigos, que, a esta altura, já dedicavam boa parte do tempo aos seus filhos, eles pareciam felizes com a "liberdade" possibilitada por um casamento sem herdeiros. Mesmo cultivando esta aparente espontaneidade, eles se viam reclusos dentro do seu cotidiano, adiando sonhos e viagens em função dos seus respectivos trabalhos relacionados à sétima arte. Em meio a produção do seu novo documentário, uma espécie de Boyhood de quase dez anos de produção, Josh conhece os descolados Jamie (Driver) e Darby (Amanda Seyifried), um casal de jovens fãs do seu primeiro e pouco conhecido filme. Encantados com a dinâmica relação e o estilo alternativo deles, Josh e Cornélia logo são sugados para uma desapegada nova rotina, voltando a flertar com o ânimo e a energia perdida na juventude. Durante estas novas experiências, porém, Josh passa a colocar em dúvida não só a sua própria identidade, como também a sua postura enquanto adulto, encontrando nesta amizade uma forma de redefinir as suas opiniões e escolhas.


Utilizando o cinema documental como um precioso pano de fundo, principalmente por levantar uma série de interessantes discussões morais a partir do elo profissional dos protagonistas, Baumbach é habilidoso ao enfatizar as diferenças comportamentais entre estas duas gerações. Do lado experiente temos o casal antenado, que se comunica pelas redes sociais, busca informação a todo instante via Google e se mantém conectado às principais plataformas digitais. Já do lado jovem surge um afetuoso casal descolado, que se veste com roupas de brechó, constrói os seus próprios móveis e coleciona LP's e VHS para serem usados em equipamentos igualmente ultrapassados. Tirando um baita proveito da rivalidade entre a cultura 'mainstream' e a 'hipster', que ganha corpo numa sequência ágil e absolutamente inspirada, o realizador é acido ao questionar a atitude da juventude atual, que aqui parece colocar a aparência em detrimento do conteúdo, os fins em detrimento dos meios e a expectativa em detrimento da realidade. Ainda que esta abordagem generalizadora incomode, e que a critica proposta perca parte do foco na ânsia de abraçar uma série de situações, é interessante ver como pouco a pouco a dinâmica entre Josh e Jamie vai se transformando, ressaltando o quão semelhantes eram estas duas figuras tão diferentes. Em meio à diálogos ora reflexivos, ora cômicos, Baumbach é preciso ao explorar as inseguranças, as falhas de caráter e a imaturidade de ambos, questionando a partir deste duelo de gerações a falta de preparo para a vida adulta. Indo do encantamento inicial à dúvida sobre a reciprocidade desta parceria, o trunfo desta amizade fica pela forma como o experiente Josh, à medida que começa a conviver com a jovialidade de Jamie, passa a dar voz à temores aparentemente superados, como a relação com a opressora figura do seu sogro, um documentarista de sucesso vivido com primor por Charles Grodin (Beethoven).


Por outro lado, ainda que as discussões éticas a cerca do casamento, do sucesso e do amadurecimento sejam coerentes, o longa oscila diante da peculiaridade do próprio enredo. Distante das tramas mais leves, Noah Baumbach não consegue encontrar o tom ideal, criando situações ora divertidas, ora arrastadas. Pra ser sincero, assim como rimos da hilária reunião envolvendo Josh e um estúpido investidor, ou nos impressionamos com a ironicamente alarmista mensagem final, somos negativamente surpreendidos pela escatológica sequência em que os casais experimentam um ritual alucinógeno. Além disso, o roteiro subaproveita os tipos femininos, ofuscados diante das ações masculinas. A começar pela ótima Naomi Watts, que rouba a cena como a prática esposa de Josh. Divertindo ao explorar os contrastes em torno do seu flerte com a juventude, a cena em que ela dança hip-hop é um dos pontos altos da película, Watts perde espaço à medida que o seu pai entra em cena. O mesmo acontece com a versátil Amanda Seyfried, que vive a única personagem autêntica da película. Na pele da liberal Darby, a jovem atriz é praticamente esnobada da segunda metade da trama, num dos principais deslizes desta comédia. O grande acerto, no entanto, reside nas excelentes atuações de Ben Stiller e Adam Driver. À vontade nos títulos mais sóbrios, Stiller evidencia o seu talento ao viver um tipo frustrado, que se encanta com a possibilidade de reviver o tempo perdido. Capturando as nuances deste homem em crise de meia idade, uma espécie de jovem num corpo de adulto, ele encara com naturalidade a transformação de Josh, se tornando o herói improvável de Baumbach. Um desempenho que cresce diante da presença de Driver, de longe um dos principais novos talentos de Hollywood. Construindo um protagonista de aura misteriosa, que conquista desde a primeira aparição, é de Driver o personagem mais ardiloso da película.


No final das contas, tal qual o brado de envelhecimento do seu protagonista, Enquanto Somos Jovens se mostra uma espécie de grito de liberdade do hoje quarentão Noah Baumbach. Um realizador que, após se destacar ao falar de maneira gentil sobre a juventude e o amadurecimento, vê neste novo trabalho a possibilidade de apresentar uma crítica a incoerência desta geração numa comédia sagaz, universal, mas distante da precisão dos seus mais inocentes trabalhos. Fazendo - como de costume - uma série de certeiras referências à cultura pop, ele usa a nostalgia, a eclética trilha sonora, o afiado time de atores e o debate sobre a verdade do cinema para questionar a imaturidade por trás da incessante inversão de identidades na busca pelo tempo desperdiçado. Até porque, na visão de Baumbach, enquanto os jovens buscam a qualquer custo a estabilidade dos adultos, os adultos parecem clamar pelas experiências libertadoras dos mais jovens.


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