domingo, 19 de abril de 2015

Frank

Musicalmente experimentalista, longa mostra que nem todas as bandas precisam de um lugar ao sol

As canções soam completamente estranhas. Os personagens são igualmente exóticos. No meio de tamanha excentricidade, porém, Frank se revela um longa extremamente lúcido ao discutir os limites morais por trás da incessante busca pela fama. Tirando um belo proveito da experimentalista trilha sonora, que cativa em função das vigorosas e surtadas performances, o diretor Lenny Abrahamson se apoia na egocêntrica dinâmica de uma transloucada banda independente para contestar a "pasteurização' do cenário musical atual e o recorrente culto à figura da celebridade. Ainda que a despretensiosa atmosfera 'indie' possa incomodar aos desavisados de plantão, este eficiente e bem humorado drama acaba conquistando graças a aura enigmática em torno do carismático e inocente protagonista vivido por Michael Fassbender (12 anos de Escravidão). Um personagem que, mesmo "escondido" atrás de uma enorme cabeça de papel machê, impressiona por sua absurda expressividade.


Inspirado no personagem Frank Sidebottom, criado pelo músico e comediante inglês Chris Sievey, o argumento assinado por Jon Ronson e Peter Straughan segue um rumo envolvente ao narrar as insanidades musicais deste grupo sob um ponto de vista aparentemente normal. Se esforçando para mascarar a figura do narrador, que ganha contornos mais atualizados ao se comunicar através de twittadas e de um diário publicado no youtube, o argumento nos apresenta ao jovem Jon (Domhnall Gleeson), um frustrado músico irlandês que parece não achar a inspiração para as suas composições. Ganhando a vida num trabalho burocrático, ele encontra a oportunidade que estava esperando quando uma banda de rock chega à cidade precisando de um novo tecladista. Convidado pelo empresário e problemático Don (Scoot McNairy), Jon se encanta rapidamente pelo excêntrico líder do The Soronprfbs, o misterioso Frank (Fassbender), um vocalista virtuoso que vivia 24 horas por dia com uma cabeçorra com grandes olhos azuis. Procurando tirar o máximo de proveito desta inusitada experiência, Jon logo entra em rota de colisão com a desequilibrada Clara (Maggie Gyllenhaal), uma integrante que reluta em aceitar a influência dele sobre Frank. Estes problemas de interação, no entanto, só aumentam quando a banda resolve se isolar numa casa na Irlanda para a gravação de um CD, ressaltando para o tecladista não só o estranho talento dos músicos, mas também os seus evidentes tormentos comportamentais.


Através de um redondo argumento, Abrahamson é perspicaz ao explorar as particularidades em torno desta inusitada história. A começar pela cabeça gigante de Frank, que funciona tanto como uma cativante ferramenta visual, quanto como um elaborado instrumento narrativo. Trabalhando habilmente com os simbolismos, este rosto sorridente ao mesmo tempo em que protege a identidade e a pureza do protagonista, dando a liberdade para ele expressar o seu virtuosismo musical, também o sufoca, impedindo que ele consiga alcançar voos mais altos. Se pararmos para refletir, esta máscara surge como uma inspirada metáfora envolvendo o atual cenário da música independente, um mercado que cada vez mais abre espaço para as novas experiências, mas que geralmente padece diante das limitações impostas pela segmentação e pelo fraco retorno financeiro. Brincando com os conflitos em torno desta excluída banda, o argumento torna esta comparação bem clara quando Frank, envaidecido pelo elevado número de acessos no youtube, resolve expor a sua arte em um grande festival. É aqui que a discussão moral em torno da busca pela fama ganha força, colocando em cheque não só o culto às celebridades instantâneas, mas também a essência do grupo e a necessidade dele se adaptar a uma "nova" realidade comercial. Dilemas que, diga-se de passagem, se mostram completamente inerentes ao atual cenário da música pop, vide a quantidade de críticas a músicos que alteraram o seu som para chegarem ao 'mainstream'.


Outro ponto que merece destaque é o triângulo afetivo envolvendo Frank, Jon e Clara. Evidenciando a bagunça proporcionada pela entrada do tecladista, o roteiro é inteligente ao destacar a forma inocente com que ele modifica o 'status quo' desta banda de rock, expondo as personalidades de cada um dos integrantes. Contando com a adorável atuação de Domhnall Gleeson, mais uma vez preciso ao compor o tipo deslocado, o realizador faz de Jon o sonhador, aquele que enxerga o talento deles e vende a possibilidade de sucesso mesmo sem saber como alcança-lo. Um tipo ingênuo, que contrasta com a temperamental Clara, num papel afeição da enérgica Maggie Gyllenhaal. Apesar de ter quase desistido do projeto, segundo ela isso não aconteceu porque a personagem não deixou a sua cabeça, a atriz mostra tenacidade ao compor esta mulher dominadora, de personalidade estranha e soturna. Um tipo que funciona como uma espécie de escudo, protegendo a pureza do vocalista diante das más influências. Perdido entre a expectativa oferecida por Jon e a realidade defendida por Clara, Frank é a alma do longa. Numa fantástica interpretação de Michael Fassbender, brilhante ao transmitir as suas emoções através da expressão corporal, o cantor encanta ao construir um tipo complexo, que camada após camada vai se revelando para o público. Inicialmente apresentado como o astro, a força criativa da banda, Fassbender explora de maneira cuidadosa as fragilidades do misterioso Frank, rendendo sequências realmente memoráveis e um desfecho absolutamente coerente.


O roteiro, no entanto, acaba falhando pela superficialidade com que aborda os problemas de alguns dos personagens secundários. Apostando em soluções forçadas, o argumento peca ao evitar as questões mais densas por trás das motivações dos outros membros da banda, deixando a desejar ao trabalhar as intenções de nomes como os do empresário Don, vivido com intensidade pelo competente Scoot McNairy (The Rover - A Caçada). Deslizes que, verdade seja dita, acabam amenizados pelo inesperado senso de humor da trama. Apesar da estética autoral e do drama ser o carro chefe, o roteiro flerta com piadas bem convencionais, arrancando honestas risadas não só com as 'gags' sobre a peculiar figura de Frank, mas também com os absurdos em torno das atitudes do underground grupo. A sequência da "despedida" no deserto, sem dúvida alguma, é uma das mais engraçadas deste primeiro semestre. Abrahamson, aliás, demonstra a mesma perícia ao reproduzir as bizarras e anti-comerciais canções, exigindo do elenco vibrantes apresentações gravadas ao vivo. Enquanto Fassbender surpreende ao emprestar a sua voz para as "ousadas" canções, Gyllenhaal fica com a ingrata missão de tocar o estranho teremin, um instrumento que combina plenamente com a agressividade Clara. As esquisitices nos ensaios do The Soronprfbs, aliás, são um capítulo à parte, numa espécie velada de sátira envolvendo os limites do experimentalismo musical.


Apostando em personagens naturalmente carismáticos e complexos, o mal humorado guitarrista francês (François Civil) merecia um espaço maior no longa, Frank é um singular drama que cativa por sua excentricidade e pela atraente atmosfera cult. Tirando onda com alguns dos principais dogmas da música, o sofrimento aqui não funciona como fonte de inspiração, este adorável longa nada contra a corrente ao contestar a necessidade desta incessante busca por um lugar ao sol. Até porque para alguns, a sombra de uma gigantesca e simpática cabeça pode parece um local bem mais confortável do que os holofotes dos grandes palcos.

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