terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A Forma da Água

Aos monstros, com carinho

“É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela". Atribuída ao escritor J.R.R Tolkien, o homem por trás do clássico O Senhor dos Anéis, esta sentença sintetiza a obra do autoral diretor Guillermo del Toro. Uma das vozes mais criativas no mundo da Sétima Arte na atualidade, o realizador mexicano se tornou referência dentro do universo da Fantasia e do Terror, principalmente pela sua habilidade em usar o cinema de gênero dentro de um contexto quase sempre realístico e contestador. Desde pequeno, influenciado pela cultura do seu país e pela popularidade dos Monstros da Universal, del Toro desenvolveu um estreito vínculo com o bizarro, o estranho. Enquanto a maioria via medo e repulsa, ele enxergava a humanidade, a essência dos personagens. Movido por esta visão de mundo, Guillermo imprimiu em tela o seu amor pelas suas estranhas criaturas, refletindo sobre a nossa realidade ao usá-las como uma espécie de espelho. Através delas, ele se acostumou a mostrar o melhor e o pior do ser humano, escancarando a monstruosidade em sua face mais mundana, em sua face mais possível. Para del Toro, não existe monstro pior do que a opressão, a ignorância, a insensatez, o preconceito. O que fica bem claro no seu mais novo projeto, o magnífico A Forma da Água. Transitando com desenvoltura entre a poesia e a realidade, o diretor desfila a sua reconhecida sensibilidade ao nos presentear com um conto de fadas ao mesmo tempo sombrio e otimista, uma película imersiva, refinada e essencialmente feminina que, graças ao seu inteligente subtexto, fascina ao se insurgir contra alguns enraizados tabus da sociedade americana. 


Num momento em que as mulheres de Hollywood (na verdade, das principais grandes metrópoles) urgem por igualdade, respeito e independência, a obstinada Elise (Sally Hawkings) surge como a personagem certa, na hora certa. Embora o argumento assinado pelo próprio Guillermo del Toro, ao lado de Vanessa Taylor, se passe na década de 1960, no auge da Guerra Fria, o longa encanta ao tirar do papel uma figura moderna e convicta, uma funcionária de uma instalação ultrassecreta que não parece incomodada em não seguir os padrões sociais da época. Sem tempo a perder, o realizador mexicano é astuto ao traduzir a rotina da protagonista ao longo do hipnotizante primeiro ato, rompendo com qualquer tipo de clichê ao estabelecer a sua independência, a sua doçura e o seu organizado estilo de vida. Logo percebemos que estamos diante de um tipo raro, uma mulher feliz com os seus amigos, feliz com o seu trabalho, feliz com a sua solteirice. Nas entrelinhas, inclusive, del Toro flerta com o cinismo ao tratar o matrimônio em si dentro de um contexto “teoricamente” ultrapassado, questionando a submissão feminina ao preencher a trama com situações propositalmente caricaturais envolvendo os demais personagens. Sem querer revelar muito, a maneira com que a expansiva (e verborrágica) Zelda (Octavia Spencer) se refere ao marido rende diálogos engraçadíssimos, um arco leve e irônico que surge como uma espécie de contraponto a tranquila rotina da protagonista. 


Impecável ao introduzir esta singular personagem, Guillermo del Toro é igualmente habilidoso ao estabelecer também o viés fantástico, a majestosa criatura anfíbio (Doug Jones) mantida em segredo pelo governo norte-americano. Assim como em A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), o monstro surge cercado de mistério e expectativas, o que explica não só a conexão quase que instantânea entre público e personagem, como também entre Elise e o ser aquático. Buscando referência nos clássicos O Monstro da Lagoa Negra e A Bela e a Fera, del Toro enche a tela de sentimento ao construir esta inusitada relação, criando um sólido vínculo entre os dois ao usar a mudez da personagem e a sua particular curiosidade como uma interessante ponte. Por mais que, num primeiro momento, a aproximação soe um tanto quanto repentina, logo percebemos que estamos diante de uma criatura especial e majestosa. Um ser digno de tamanha afeição. Com a maturidade adquirida ao longo de três décadas de carreira, o diretor é sutil ao transitar da amizade para o romance, se aprofundando nos anseios mais íntimos de Elise enquanto constrói os conflitos e revela os perigos em torno desta relação. Na verdade, del Toro é carinhoso ao tratar esta poética história de amor com improvável normalidade, permitindo que o público, apesar do choque inicial, compreenda os motivos da personagem, enxergue a cumplicidade entre os dois e passe a torcer para o tão esperado final feliz. Um conceito que, nas mãos do mexicano, nem sempre soa tão óbvio assim. 


Brilhante ao construir esta revigorante história de amor, capturada com sutileza e inventividade pelas imersivas lentes de Guillermo del Toro, A Forma da Água alcança o seu ápice no momento em que decide expor a face dos verdadeiros monstros: os próprios humanos. Com um enorme domínio sobre a sua obra, o realizador esbanja categoria ao tirar o máximo dos seus personagens secundários, a começar pelo rígido e agressivo Strickland (Michael Shannon). Fazendo um perspicaz uso do subtexto, a dualística Guerra Fria, del Toro coloca o dedo na ferida ao tornar o militar uma espécie de símbolo do pior da sociedade americana. E isso, pasmem vocês, sem torná-lo puramente maniqueísta. Isso porque, numa sacada genial, o mexicano opta por não levá-lo tão a sério assim. Diferente, por exemplo, do frio general interpretado (com maestria) por Sergi Lopez em O Labirinto do Fauno, o detestável chefe de segurança da base secreta se mostra mais falho do que o esperado. Através dele, na verdade, o diretor encontra os ingredientes necessários para zombar do "American Way of Life", debochando do paternalismo, da rigidez máscula e da ignorância do vilão ao quebrar as nossas expectativas e extrair o humor de situações inesperadas. Não espere, porém, uma versão "light" de del Toro. Quando necessário, ele imprime a sua veia 'gore' ao extrair o máximo do antagonista, e por consequência do extraordinário Michael Shannon, expondo a sua face mais raivosa dentro do intenso (e por vezes repulsante) último ato. 


Curiosamente, porém, basta a trama se distanciar do contexto militar para Guillermo del Toro surpreender o público com uma narrativa doce e com um pé no lúdico. Um autêntico nerd da Sétima Arte, o mexicano embala o longa com uma série de referências musicais e cinematográficas da época, uma deles, em especial, promete agradar o público brasileiro, reforçando a atmosfera de fascínio ao construir uma película capaz de falar através das suas imagens. Por diversas vezes, inclusive, del Toro flerta com elementos do cinema mudo ao traduzir a interação entre Elise e a criatura, apostando na linguagem de sinais, em espertas soluções narrativas e na expressividade dos seus comandados ao nos brindar com sequências de rara beleza. A ausência de diálogos entre os dois só realça o charme da película, culminando em um singelo e revelador número musical. Num todo, aliás, impulsionado pela delicada fotografia 'noir' esverdeada de Guillermo Navarro, magnífico ao usar a iluminação incidental em prol da história, o diretor envolve ao valorizar a relação entre os atores, a química do talentoso elenco, preenchendo a trama com íntimos planos médios e um suave jogo de câmeras. Somado a isso, o esmero da equipe de direção de arte fica impresso em tela a cada cena, tornando todos os cenários extremamente habitáveis aos olhos do público. Quando o assunto é o visual, aliás, o design da criatura é diferente de tudo o que del Toro já construiu antes. Numa combinação de maquiagem com efeitos digitais, o mexicano cria um personagem raro, com uma textura lustrosa própria, uma pele escamosa e uma movimentação fluída. Graças ao impressionante trabalho do mímico\ator Doug Jones, o antropomorfizado anfíbio causa o impacto necessário sempre que está em cena, com destaque para os seus expressivos olhos e para a sua discreta coloração em tons de neon. 


Quando o assunto é o elenco, aliás, a talentosa Sally Hawkins empresta o seu reconhecido carisma ao desenhar a sua Elise. Com a energia necessária para absorver o misto de independência, pureza e compaixão da sua personagem, ela esbanja feminilidade ao traduzir os anseios da faxineira, ao defender o seu romantismo, a sua obstinação e a sua personalidade forte, criando uma daquelas personagens femininas exemplares. Uma interpretação memorável potencializada pela maneira praticamente enamorada com que a lente de del Toro captura os passos (em alguns momentos literalmente) da sua protagonista. Tão subestimado pelo grande público quanto Hawkins, Richard Jenkins cativa ao capturar a decadência do seu Giles. Na pele do vizinho de Elise, ele realça o elemento dramático ao interiorizar a melancolia do desenhista, um publicitário “substituído” pelo advento das campanhas fotográficas. Com um senso de humor particular, Jenkins reforça o 'background' realístico ao ganhar um arco afetivo realmente interessante, indo além das expectativas ao não ficar reduzido a figura do zeloso amigo. Já Octavia Spencer volta a se destacar ao dar vida a uma mulher companheira e falastrona. Embora não interprete um tipo, digamos, inédito na sua filmografia, a radiante atriz injeta vigor em cena ao exibir um afiado tempo de comédia, realçando a qualidade do texto ao protagonizar alguns dos momentos mais engraçados da película. Por fim, Michael Stuhlbarg se reafirma como um dos grandes "ladrões de cenas" de Hollywood na pele do dúbio Drº Hoffstetler. O tipo de personagem secundário com o padrão del Toro de qualidade. 


Guiado pela apaixonante trilha sonora de Alexandre Desplat, A Forma da Água baila entre a realidade e a fantasia num romance igualitário, tolerante e encantador. Uma verdadeira carta de amor ao diferente, ao estranho. Embora peque pelo excesso em um ou dois momentos, Guillermo del Toro entrega a sua obra mais madura, um conto de fadas capaz de refletir sobre temas tão atuais dentro de um contexto mágico e genuinamente cinematográfico. Um filme que, apesar de não ter o peso de O Labirinto do Fauno, comprova a genialidade do mexicano em personificar\enxergar os verdadeiros monstros da vida real. 

3 comentários:

JOTAT10 disse...

Não vi esse filme ainda, mas me parece que o medo vai imperar em algumas cenas do mostro com a personagem central do filme, é horripilante essa interação entre eles, na vida real seria impossível uma relação dessa, mas filme tudo é ilusão, por isso vou relevar.

thicarvalho disse...

Mas é essa justamente a graça JOTAT10. Del Toro é um mestre na arte de usar a fantasia como um espelho da realidade. O resultado é um romance delicado, denso e adoravelmente excêntrico. Valeu pela visita.

JOTAT10 disse...

Sempre que tiver oportunidade estarei visitando. Abraços.

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