quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Entre Irmãs

Elenco e direção de arte elevam o nível de um drama com roupagem novelesca

Adaptação da obra A Costureira e o Cangaceiro, da escritora
Frances de Pontes Peebles, Entre Irmãs comprova a importância de um talentoso elenco. Sob a batuta de Breno Silveira, do sucesso Dois Filhos de Francisco, o longa estrelado pelas entrosadas Marjorie Estiano e Nanda Costa supera a abordagem simplória ao se aprofundar nos dilemas das duas protagonistas. Apesar da roupagem novelesca, principalmente quando o assunto é a problemática montagem, Silveiro impede que o drama recoste no lugar comum ao valorizar as nuances do roteiro, pintando um competente retrato sobre o cangaço no Brasil da primeira metade do século XX. 


Com roteiro assinado por Patrícia Andrade, Entre Irmãs narra  a trajetória das irmãs Luzia (Costa) e Emília (Estiano). Criadas pela bondosa tia no interior do nordeste, as duas cresceram unidas pela costura, mas separadas pelas suas diferenças. Enquanto a prática Luzia não via um grande futuro, a romântica Emília sonhava em deixar a caatinga, acreditando que logo iria encontrar o seu príncipe encantado. A rotina das duas, entretanto, muda drasticamente quando o temido cangaceiro Caracará (Júlio Machado) invade a vila das jovens e rende todos os moradores. Numa proposta cruel, ele oferece a vida da Emília e da sua tia em troca da ida de Luzia com o seu grupo. Destemida, ela topa no ato, deixando para trás a sua família e os poucos amigos. Solitária, Emília decide partir para a cidade grande ao lado do charmoso Degas (Rômulo Estrela), sem saber que não demoraria muito para que o seu caminho cruzasse com o da sua querida irmã. 


Impecável ao construir o vínculo entre as personagens, Breno Silveira reforça o aspecto dramático presente no texto ao longo do envolvente primeiro ato. Impulsionado pela valorosa direção de arte, o realizador é cuidadoso ao reproduzir tanto a rotina das jovens num Brasil esquecido, quanto ao estabelecer a força do poder paralelo num ambiente dominado por coronéis e cangaceiros. Na transição para o segundo ato, porém, Entre Irmãs passa a sofrer de um desnível crônico. Unidos por frágeis soluções narrativas, os arcos das agora separadas irmãs não se mostram tão afinados assim. Enquanto a jornada da cangaceira Costureira, nome de "guerra" de Luzia, se revela atraente e vigorosa, o romance de Emília soa frouxo e irregular. Na verdade, Silveira peca pela superficialidade ao se debruçar nas frustrações da sonhadora jovem, ao transitar por temas como a homossexualidade e o preconceito. É aqui, aliás, que os problemas de execução e de ritmo se tornam mais evidentes, o que fica bem claro quando o assunto é o desfecho de Degas e a falha transição temporal do longa. 


Em contrapartida, Silveira é certeiro ao mostrar a realidade de uma região abandonada sob o olhar da resiliente Luzia. Com sutileza e propriedade, o diretor comove ao revelar a miséria presente no interior, pontuando o filme com momentos comoventes. Além disso, por mais que as cenas de ação não sejam tão memoráveis assim, principalmente dentro do diminuto clímax, Silveira é incisivo ao mostrar a violência do cangaço, encontrando uma interessante forma para expor a face mais gráfica por trás do confronto. Ponto para a amarelada fotografia desértica de Leo Resende Ferreira. No final das contas, porém, a força de Entre Irmãs reside nas ótimas atuações de Marjorie Estiano e Nanda Costa. Enquanto a primeira esbanja sensibilidade ao traduzir os intensos conflitos sentimentais da sua Emília, a segunda abre mão da vaidade ao encarar a destemida Luzia, enchendo a tela de energia ao criar uma mulher independente e inteligente. Dito isso, embora se renda a algumas soluções típicas dos folhetins, Entre Irmãs contorna os seus momentos menos inspirados ao exaltar a força das suas protagonistas. 

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