sexta-feira, 3 de março de 2017

Logan

Dor e sobrevivência

De longe a obra mais corajosa dentro do universo X-Men nos cinemas, Logan é o filme solo que Wolverine e Hugh Jackman sempre mereceram. Magnífico enquanto estudo de personagem, o longa dirigido por James Mangold (Wolverine: Imortal) se livra das amarras do gênero ao investigar, sob um prisma denso e visceral, o impacto da violência na rotina de um herói atingido pelo tempo e pelo passado. Fazendo um subversivo uso do recurso da metalinguagem, o realizador esbanja originalidade ao contestar os mitos construídos ao longo da franquia, ao expor as sequelas impostas pelos antes exaltados superpoderes, indo a fundo nos dramas do protagonista ao se encantar pelo lado humano por trás das garras de adamantium. Entre diálogos fortes e cenas brutais, o diretor é incisivo ao revelar as consequências de uma vida dedicada à sobrevivência, equilibrando ação, drama e um nervoso senso de humor ao resgatar a faceta anti-heroica do personagem. É quando se volta para a sincera relação entre Wolverine, Xavier e a feroz X-23, porém, que a película alcança o seu viés mais intimista, se esquivado dos clichês redentores ao realçar a natureza, os anseios e os medos mais enraizados do trio de mutantes. Em suma, Logan não é "mais um" filme de super-heróis. Na verdade, estamos diante de uma obra particular, uma produção envolvente e tecnicamente refinada que, mesmo nos seus momentos convencionais, traz consigo a força necessária para transpor as barreiras deste escapista gênero.



Com argumento assinado pelo próprio James Mangold, ao lado de Scott Frank e Michael Green, o longa é inicialmente inventivo ao construir um novo universo dentro do universo cinematográfico dos X-Men. Ficou confuso? Vai a explicação. Numa sacada de mestre, o terceiro filme solo do Wolverine se passa num cenário real, num ambiente incômodo e naturalmente opressor. Neste contexto, os mutantes sempre existiram, mas os seus feitos foram ficcionalizados, reproduzidos parcialmente em otimistas revistas em quadrinhos. Ou seja, eles se tornaram os heróis das suas próprias histórias. Longe dos holofotes midiáticos, no entanto, eles seguiram tendo que lidar com a perseguição e a intolerância governamental, o que fica claro quando nos deparamos com o trágico futuro apresentado em Logan. Embora as referências ao passado "glorioso" sejam evidentes, o roteiro é habilidoso ao introduzir a mudança no 'status quo' dos personagens, ao questionar este rótulo heroico e ao explorar a faceta mais humana dos sobreviventes. Na trama, que se passa no ano 2029, acompanhamos os passos do solitário Logan (Hugh Jackman), um dos últimos mutantes vivos que leva uma vida desconfortável como um motorista de limousine. Cansado da rotina de confrontos, ele só queria juntar o dinheiro para comprar um barco e poder morar no meio do oceano com o seu grande amigo, o senil Charles Xavier (Patrick Stewart). Beberrão e fragilizado, Wolverine é obrigado a mostrar as suas garras novamente quando o seu caminho cruza com o da pequena Lauren (Dafne Keen), uma jovem superpoderosa que é perseguida por um grupo de mercenários, os Carniceiros, liderados pelo inteligente Donald Pierce (Boyd Holbrook). Convencido por Xavier, Logan decide leva-la para um lugar seguro, tendo que lidar com velhos fantasmas ao perceber a sua crescente conexão com a agressiva criança.


Impecável ao absorver o potencial metalinguístico da trama, James Mangold é igualmente preciso ao traduzir o devastado estado de espírito de Wolverine. Apesar das mudanças quanto ao tom e o teor da película, o diretor esbanja sensibilidade ao reciclar alguns dos mais populares conflitos do personagem, mostrando um enorme respeito pela sua natureza e pelo legado construído por Hugh Jackman à frente do papel. Embora inserido num cenário diferente, Logan é basicamente o mesmo homem do primeiro X-Men (2000), um anti-herói atormentado pelo passado que não parece disposto a criar laços com as pessoas que o cercam. A grande diferença, na verdade, está na maneira com que o argumento enxerga os dilemas do protagonista. Por mais que as caóticas e irretocáveis sequências de ação tenham função de destaque, enfatizando a brutalidade do mutante como nenhum outro filme da franquia havia feito, o longa se diferencia dos demais ao dar voz aos momentos mais dramáticos.


Com a coragem necessária para mexer nas estruturas um gênero tão consolidado, James Mangold é sutil ao investigar os dilemas do anti-herói sob um ponto de vista realístico e genuinamente pessoal. Através de diálogos marcantes e enquadramentos imersivos, o realizador encontra o fator humano na disfuncional relação entre Logan, Xavier e Laura, comovendo ao transitar com profundidade e elegância narrativa por temas como o peso da morte, a dor da perda e a solidão. Por diversas vezes, inclusive, ele troca a simplicidade da palavra falada pelo silêncio, pelo gesto afetuoso e pela expressividade de um olhar, enchendo a tela de sentimento ao arquitetar o crescente vínculo dos personagens. É interessante ver também, aliás, o cuidado do roteiro ao explorar a natureza violenta dos mutantes e o processo de "domesticação" da X-23, se esquivando dos clichês mentor\aluna ao revelar a franca troca de experiências dos dois. Esqueça, portanto, a abordagem "escolar" apresentada nos primeiros filmes da série. Mais do que ensina-la, Logan faz questão de mostrar os perigos por trás de uma vida dedicada aos seus superpoderes. Neste sentido, a referência ao clássico pacifista Os Brutos também Amam surge como um toque de classe e diz muito sobre a pegada 'western' da obra.


É quando se volta para o estado físico dos mutantes, porém, que Logan alcança um patamar raro dentro do gênero. Indo para um lugar onde nenhum outro representante do segmento teve a ousadia de ir, James Mangold nos brinda com heróis fragilizados, devastados pelo tempo, homens decadentes precisando conviver com as sequelas impostas pelos seus próprios superpoderes. Com um enorme zelo pela história dos seus personagens, o realizador norte-americano é brilhante ao reforçar a cumplicidade entre Xavier e Wolverine, criando um primoroso contraste com este ambiente sujo ao realçar a beleza por trás desta estreita interação. Dela, aliás, nascem diálogos ora reflexivos, ora conflitantes, momentos de puro intimismo que resgatam uma rixa comportamental presente nos primeiros filmes da franquia. Na verdade, o argumento "capricha" na troca de ofensas entre os dois, fazendo um excelente uso da elevada classificação etária ao entregar sequências nervosas e completamente inéditas dentro do universo cinematográfico dos X-Men. E isso, diga-se de passagem, sem desrespeitar a personalidade dos sobreviventes, vide o impagável surto raivoso de Logan, uma reação natural diante de um episódio impactante. Por outro lado, à medida que o longa avança, Mangold flerta com algumas soluções menos inspiradas. Na ânsia de criar um rival mais desafiador, por exemplo, o roteiro encontra uma saída preguiçosa, mas que funciona, muito em função do talento do ator por trás deste personagem e da coragem do longa ao explora-lo em uma cena naturalmente desconcertante. Somado a isso, o passado da X-23 é introduzido com exagerado didatismo, reduzindo o impacto em torno das descobertas do implacável último ato.


Nada que, verdade seja dita, reduza o impacto da película, potencializada pelas estrondosas atuações do talentoso elenco. A alma do universo X-Men, Hugh Jackman nos brinda com um Wolverine cansado e desiludido. Num trabalho fisicamente invejável, o astro australiano absorve o desgaste do seu personagem com extrema perícia, entregando um herói envelhecido, de respiração ofegante, que apanha mais do que bate. Com pleno domínio sobre as emoções do seu Logan, Jackman vai do trêmulo ao selvagem como num piscar de olhos, mostrando que por trás daquela casca deteriorada ainda existia uma fera descomunal. Impecável nas viscerais sequências de ação, o ator mostra sensibilidade ao interiorizar os sentimentos mais reprimidos do mutante, os seus medos e frustrações, comovendo ao dar vida a um homem que preferiu o isolamento à dor da perda. Assim como Jackman, Patrick Stewart consegue adicionar novos ingredientes ao seu Xavier sem precisar descaracteriza-lo. Com uma figura senil e perigosa em mãos, o veterano fascina ao criar um tipo ao mesmo tempo sábio e delirante, um mentor que perdeu os instintos, a sanidade, mas não a fé nas suas crenças.


Os dois juntos, aliás, exibem um afiado tempo de comédia, um elemento aproveitado com pontualidade por James Mangold. Quem realmente rouba a cena, entretanto, é a pequena Dafne Keen. No seu primeiro trabalho em Hollywood, a expressiva atriz impressiona como a silenciosa Lauren, equilibrando brutalidade, curiosidade e inocência com enorme categoria. Exibindo uma excepcional química com Hugh Jackman, a atriz mirim não se intimida e encara com naturalidade a instável relação entre X-23 e Logan. Além disso, ela captura com maestria a personalidade indomável da sua personagem, se destacando não só nos violentos embates físicos, como também nos divertidos conflitos mais pessoais. Sem querer revelar muito, a cena em que Lauren obriga o antes temido Wolverina a fazer algo está entre os melhores momentos do filme. Quem também merece elogios, aliás, é o carismático Boyd Holbrook, afiado como o influente e confiante líder dos Carniceiros. 



No embalo dos minimalistas riffs de piano do compositor Marco Beltrami (Águas Rasas), Logan se revela uma obra autoral e poderosa, o produto de um gênero que tem evoluído a passos largos nas últimas duas décadas. Impulsionado pelo êxito de títulos como Batman: O Cavaleiro das Trevas, Capitão América: O Soldado Invernal e o recente Deadpool, James Mangold arremata a jornada deste pilar do universo cinematográfico da Marvel com dramaticidade e intimismo, flertando constantemente com o teor melancólico ao expor as dolorosas cicatrizes de um herói relutante, um homem que viveu tempo o bastante para experimentar a dor da solidão. O resultado é uma película corajosa e de excelente ritmo, um desfecho emblemático que finalmente faz jus à dedicação de Hugh Jackman ao seu tão estimado Wolverine. Uma despedida em grande estilo.


Obs: Embora eu seja um defensor dos filmes no idioma original, a dublagem de Isaac Bardavid é excepcional e adiciona um charme especial ao longa. 

Obs 2: Logan é um filme violento, agressivo e com inúmeros xingamentos. Portanto, NÃO é um filme recomendados para crianças. Quem avisa amigo é. 

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