sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Acima das Nuvens

Hollywood e a crise de meia idade feminina

Num momento em que nomes do porte de Frances McDormand (Fargo) vêm a público reclamar da falta de qualidade dos papeis femininos, Acima das Nuvens se mostra um relato preciso e contundente sobre os bastidores desta crise de meia idade feminina em Hollywood. Nos apresentando a atarefada rotina da atriz ficcional Maria Enders, numa soberba atuação de Juliette Binoche, o francês Olivier Assayas se arrisca ao tentar compreender a complexidade do comportamento feminino com a chegada da maturidade. Utilizando a preparação para uma peça teatral como um interessante pano de fundo, o diretor e também roteirista encontra num envolvente duelo de gerações, potencializado pela impressionante atuação de Kristen Stewart, uma forma genuína de se aprofundar nas incertezas e inseguranças de uma popular atriz que ainda reluta em se distanciar dos personagens de sua juventude.


Se aproveitando da poética fotografia de Yorick Le Saux (Amantes Eternos), que embalada pela suave trilha sonora captura de forma magistral as belezas naturais dos Alpes Suíços, Olivier Assayas constrói um belíssimo cenário para o desenvolvimento deste duelo de "mentalidades". De um lado temos a respeitada e bem sucedida Maria Anders (Binoche), uma referência dentro da arte de atuar que viaja à Zurique com a missão de receber um prêmio em nome do seu mentor, um recluso e brilhante parceiro de teatro. Do outro a jovem Valentine (Stewart), uma determinada assistente que se esforça ao máximo para atender a todos os caprichos e pedidos de sua "chefe". Alimentando certo fascínio pela experiente atriz, Val é o seu braço direito, responsável não só por leituras de textos e contratos, como também por ouvi-la como uma amiga confidente. Durante esta viagem, no entanto, Maria descobre que o grande amigo morreu e que este fato criou um frenesi em torno de uma nova montagem da peça que a fez famosa. Desta vez, porém, Maria é convidada para interpretar a submissa Helena, uma personagem mais velha, deixando a Sigrid de sua juventude para a promissora e problemática estrela adolescente JoAnn (Chloe Moretz). Visivelmente incomodada com esta nova realidade, Maria se isola ao lado de Val em uma casa de campo para iniciar a preparação para peça. Longe da rotina diária, as duas passam a se aprofundar na relação das personagens, sem saber que estariam assim iniciando um duro jogo de autoanalise envolvendo questões como a chegada da maturidade, o medo de ser ofuscada e, até mesmo, a sua própria amizade.


Ainda que apresente de forma extremamente natural os bastidores envolvendo a rotina de uma estrela hollywoodiana, com direito a uma sutil crítica ao culto às celebridades e a valorização das atrizes mais jovens, é na relação entre Maria e Val que o roteiro realmente se destaca. Em meio aos dilemas da atriz envolvendo a aceitação desta personagem, que parece refletir a sua nova realidade, Olivier Assayas é corajoso ao desenvolver este duelo de gerações, invertendo nitidamente as posições. Isso porque apesar de Val ser a personagem mais jovem, chega a ser curioso ver Kristen Stewart defendendo as franquias teen e as atrizes problemáticas que traem os seus namorados em público (a arte imitando a vida), é a sua voz a mais madura e flexível. Desta forma, enquanto a assistente é apresentada como aquela que se dispõe a mostrar como funcionam as coisas no mundo real, Maria Anders é a complexidade em pessoa. Ao mesmo tempo em que descarta aceitar um papel numa continuação de um filme de super-herói ou ri das bizarrices de um popular Sci-Fi, a experiente atriz reluta em se enxergar no papel daquela mulher mais madura. Se mostrando sempre apegada a juventude de Sigrid, ela não parece disposta a entender o comportamento de Helena, cabendo a Val a missão de tentar mostrar a realidade por trás das atitudes de sua nova personagem. À medida que elas vão se aprofundando na leitura da peça, aliás, ficção e realidade passam a se confundir, trazendo intensidade e vigor para os embates comportamentais entre as duas. Indícios e insinuações que, diga-se de passagem, são potencializadas pela narrativa leve, fluída e original, desenvolvida através de atos tal como uma peça de teatro.


Apesar dos diálogos acima da média e da estilosa narrativa chamar a atenção, são as atuações femininas o grande diferencial de Acima das Nuvens. A começar pela impressionante entrega de Juliette Binoche, capaz de emendar uma personagem dentro da outra de forma realmente espetacular. Impecável ao mostrar as várias facetas de uma atriz, Binoche encanta pela intensidade com que constrói tanto essa glamourosa figura publica, movida por elogios fúteis e uma falsa sensação de liberdade, como também uma vulnerável mulher comum em meio à crise de meia idade. Se Binoche comove com a complexidade de sua personagem, Kristen Stewart surpreende através da naturalidade de Valentine. Sem se abalar com o peso da experiente atriz francesa, Stewart constrói uma personagem prática e contida, de aura quase misteriosa, que esconde as suas verdadeiras intenções atrás das ânsias da juventude. Duas grandes atuações que, somadas a luxuosa presença de Chloe Moretz, vibrante como a adolescente problema típica de Hollywood, amenizam até mesmo os pequenos deslizes em torno do longa. Incluindo ai as excessivas duas horas de projeção, a falta de contundência em alguns trechos mais poéticos e o reflexivo epílogo, que só não se mostra excessivamente vago graças a uma debochada cena entre Binoche e Moretz e ao impecável choque de realidade da ultima cena.


Fugindo com habilidade dos estereótipos sobre a abordagem envolvendo as estrelas de Hollywood, Olivier Assayas faz de Acima das Nuvens um relato honesto não só sobre a crise de identidade feminina com a chegada da meia idade, mas também sobre os bastidores de uma indústria de cinema com apetite voraz para a juventude. Explorando como poucos a metalinguagem presente na trama, esse analítico drama mostra que o tempo pode ser implacável para todas(o), sejam personalidades do cinema ou não. A grande questão, segundo o diretor francês, é saber como evitar que os outros digam que chegou a hora dos seus holofotes se apagarem. Vide a magistral atuação de Juliette Binoche, completamente reluzente aos 50 anos.

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