quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cinemaniac Indica (A Porta)

Seguindo o objetivo maior do "Cinemaniac Indica", neste espaço procuro escrever sobre filmes que muitas vezes passam despercebido do grande público. Aqueles trabalhos que, ao serem esquecidos pelas grandes redes de cinemas, pela TV aberta e pela maioria dos canais fechados, quase sempre se perdem entre as sessões da madrugada ou os canais de conteúdo mais cult. Um destes exemplos é o instigante suspense A Porta, obra que discute com brilhantismo algumas interessantes questões morais. Bebendo da fonte dos grandes clássicos Sci-Fi, o longa estrelado por Mads Mikkelsen levanta um dilema extremamente pertinente dentro dos longas do gênero. Afinal de contas, até que ponto você iria para mudar o seu passado?

Baseado em conto assinado por Akif Pirinçci, o longa alemão dirigido por Anno Saul narra a história de David, um pai de família que se perde após uma grande tragédia pessoal. Abalado pelo sentimento de culpa, ele não consegue se reerguer durante os cinco anos seguintes. Tentando conquistar o perdão de sua ex-esposa (Jessica Schwarz), David chega ao fundo do poço quando percebe que ela não está disposta a desculpa-lo. Entregue as bebidas, ele tenta por fim ao seu sofrimento através do suicídio. Após ser salvo por seu melhor amigo (Tim Seyfi), David descobre uma misteriosa passagem por uma porta. Ao entrar nela, ele acaba voltando ao dia da grande tragédia que mudou a sua vida. Disposto a alterar o rumo de seu futuro, David resolve interferir nos acontecimentos, sem saber que ali estaria iniciando uma perigosa reação em cadeia.


Lidando de forma criativa com todas essas questões envolvendo a transição entre futuro e passado, o roteiro assinado por Jan Berger deixa as explicações Sci-fi de lado para se concentrar nos dilemas morais que cercam os personagens. Alimentando um clima de tensão desde a primeira cena, o diretor Anno Saul explora com habilidade todas as consequências dessa tentativa de se alterar um destino já definido. Sem querer revelar muito essas questões são abordadas de forma bem mais explícita e imediatista, opção que se mostra diferente da grande maioria dos filmes do gênero. Deixando claro a sensação de perigo iminente, o longa é extremamente feliz ao explorar os limites da natureza humana, ora de forma sensível, com destaque para a relação entre David e a filha (Valeria Eisenbart), ora de maneira direta e violenta, principalmente no contato com esse "novo" passado. Alternâncias que sugam a atenção do espectador desde a primeira cena, impedindo que as pequenas derrapadas do roteiro, com destaque para o clímax mais convencional, estrague o clima criado durante toda a película.


Habilidoso ao construir os personagens e a as reações deles diante dos fatos, Berger consegue tirar o máximo do sempre competente Mads Mikkelsen. Deixando claro todo o sofrimento em consequência de suas atitudes, seja no passado, seja no futuro, Mikkelsen mostra em cena os motivos pelo qual é considerado um dos melhores atores europeus da atualidade. Ainda que demonstre grande química com a bela Jessica Schwarz, que vive a sua esposa, a relação de Mikkelsen com a jovem Valeria Eisenbart é o ponto alto do longa. Pivô de toda a trama, a relação entre pai e filha mostra a capacidade do roteiro em enfatizar o lado humano da história, principalmente na cena em que o pai tenta encontrar uma resposta singela para as dúvidas da filha. Um momento que parece flutuar entre o simples e o genial. Se inspirando em grandes clássicos do gênero, com referências claras à Invasores de Corpos e à De Volta Para o Futuro, A Porta surpreende pela forma inquietante com que aborda os dilemas envolvendo o limite da moral humana. 

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